Adrião Filho, poeta, compositor, escritor, pesquisador e produtor cultural da Bahia, apresentou em entrevista ao programa de TV "Empreender Brasil" suas reflexões sobre como manter a sustentabilidade no setor cultural. Na avaliação dele, embora o empreendedorismo seja uma estratégia essencial para a sobrevivência de quem trabalha com arte no Brasil, as políticas públicas contínuas são determinantes para a viabilidade dessa atividade profissional.
Natural da periferia, Adrião credita seu desenvolvimento profissional ao apoio familiar na educação e formação. Ele ressalta como a combinação entre conhecimento acadêmico e experiência prática em artes tornou-se fundamental para conseguir aprovação em editais, estruturar projetos e expandir sua atuação profissional.
Como escritor, tem três livros publicados que misturam prosa poética, contos e versos: "Redemoinho", "Little Rex – O Tiranossaurozinho" e "Encruzilhar-Nos". Também trabalha como compositor em parcerias e integra o grupo musical "O Arrepio", que segue a tradição griô. Sua produção foi reconhecida com as medalhas Zumbi dos Palmares, Maria Feijó e Lázaro Zacariades, além de premiação pela Política Nacional Aldir Blanc.
A renda que Adrião obtém vem de múltiplas fontes: desenvolvimento e execução de projetos, participação em eventos, apresentações e circulação artística. Com apoio de editais estaduais da Bahia, realizou turnês em Cabo Verde e Portugal, exemplificando como o financiamento público pode levar criações brasileiras a novos públicos e espaços.
Apesar dessa diversificação, o quadro atual apresenta limitações. Em um setor onde a renda depende da aprovação de projetos em editais, da realização de eventos e de captação de recursos, a falta de financiamento regular torna difícil planejar carreira e manter uma produção constante. Adrião reconhece que ações emergenciais de apoio são importantes, mas apontam-se como insuficientes quando desvinculadas de políticas duradouras.
Mecanismos permanentes necessários
O artista defende mecanismos estruturantes que ampliem formação, geração de renda e acesso à infraestrutura para criação artística. Ele menciona a Lei nº 14.399/2022, que instituiu a Política Nacional Aldir Blanc, responsável por repassar recursos federais contínuos a estados, Distrito Federal e municípios para financiar projetos por meio de editais. Porém, segundo sua avaliação, é preciso avançar: propõe renda básica para artistas, bolsas de formação, cursos e espaços públicos para criação e apresentação. Para ele, a sustentabilidade passa pela mistura entre iniciativa profissional, formação, redes colaborativas e investimento público continuado, reconhecendo a cultura como direito e infraestrutura democrática, não privilégio.
Poesia como resistência e futuro
Adrião entende a poesia como elemento presente nas relações afetivas, identidade cultural, alimentação, vestuário e conexão das pessoas com seus territórios. Influenciado por Gilberto Gil e Paulo Freire, vê a cultura como espaço de expressão democrática, crítica e celebração. Segundo ele, a poesia consegue abordar as dificuldades do cotidiano de maneira a denunciar, reelaborar e ressignificar, capacidade que fortalece consciência crítica, preserva memória e abre possibilidades de futuro, reforçando direitos constitucionais.
Adrião também critica modelos de desenvolvimento que colocam expansão econômica e indústria bélica acima da vida humana. Citando Paulo Freire, argumenta que a esperança não deve ser passiva, mas acompanhada de ação concreta. Ele reforça a urgência de desarmar crianças de armas e oferecer-lhes livros e conteúdo, afirmando que esse debate alcança as novas gerações como ferramenta de transformação.







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