A Polícia Federal (PF) está preparando uma reorganização interna para fortalecer o combate a apostas ilegais, propondo a criação de uma divisão permanente dedicada a esse tipo de crime. O projeto, detalhado em um documento enviado pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, também prevê unidades focadas em manipulação de resultados esportivos e lavagem de dinheiro por meio de ativos virtuais. Integrantes do governo indicam que a reformulação já recebeu o aval do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A proposta de reestruturação foi formalizada em 25 de setembro, mesma data em que o presidente Lula assinou uma medida provisória que proíbe a oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa em todo o território nacional. A proibição também foi oficialmente anunciada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. Atualmente, a reorganização está em trâmite no Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos e, por envolver a criação de novas estruturas administrativas, estima-se um impacto financeiro mensal de R$ 44,9 mil.

Novas Divisões e o Combate ao Crime Organizado

Pelo desenho proposto, será criada a Divisão de Repressão a Apostas Ilegais, responsável por concentrar investigações sobre plataformas que continuem operando fora da legalidade. A PF também pretende instituir uma Divisão de Repressão à Manipulação de Resultados Esportivos. Ambas as estruturas fariam parte de uma reformulação mais ampla da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor), que já é responsável por investigações de crimes financeiros e organizações criminosas.

No documento, Andrei Rodrigues justificou a reorganização como uma forma de “fortalecer a capacidade institucional da Polícia Federal para o enfrentamento econômico ao crime organizado”, integrando a repressão à lavagem de dinheiro, inteligência financeira, investigação patrimonial e recuperação de ativos, além do combate a apostas ilegais e manipulação de resultados. Uma das principais mudanças é a criação da Coordenação-Geral de Repressão à Lavagem de Dinheiro e Recuperação de Ativos (CGLA), vinculada à Dicor. Dentro dela, funcionaria uma Coordenação de Inteligência Financeira e Lavagem de Dinheiro, com um serviço específico para investigar operações de lavagem envolvendo criptomoedas e outros ativos virtuais. A PF apreendeu R$ 71 milhões em criptomoedas usadas em atividades criminosas em 2025, um aumento significativo em relação aos R$ 11,1 milhões do ano anterior.

Estrutura Permanente e Ações Governamentais

A proposta também contempla a criação da Coordenação de Recuperação de Ativos, voltada a investigações patrimoniais e à localização, gestão, alienação e destinação de bens associados a crimes. Atualmente, as áreas de combate à lavagem de dinheiro e de recuperação de ativos ocupam posições inferiores no organograma, e com a mudança, passariam a ter status de coordenação, ampliando sua importância institucional. A PF afirmou que a nova estrutura permitirá reunir essas atividades sob uma direção única, “estruturando fluxos capazes de aproximar a produção de subsídios financeiros da identificação, localização, constrição, administração, alienação e destinação de bens”.

Em maio, a PF já havia criado um grupo temporário para investigar manipulação de resultados esportivos, fraudes relacionadas a apostas e operação ilegal de plataformas. A nova configuração, no entanto, transformaria essa atuação em uma estrutura permanente e com maior peso. Além das divisões destinadas às apostas e ao esporte, a proposta prevê uma Divisão de Doutrina e Capacitação, um setor de apoio administrativo e um núcleo de gestão estratégica. Ao todo, o projeto contempla 17 novas unidades administrativas, aproveitando três estruturas já existentes.

O fortalecimento da PF ocorre em meio à ofensiva do governo contra plataformas que continuam oferecendo apostas após a publicação da medida provisória. Em 29 de setembro, os ministérios da Justiça e da Fazenda informaram ter solicitado a derrubada de 5.209 domínios relacionados à exploração de apostas. O governo também determinou a retirada de anúncios e páginas utilizadas para divulgar os serviços. Uma força-tarefa dos dois ministérios já havia retirado do ar 506 sites com indícios de oferta irregular de apostas. Entre março de 2023 e agosto de 2026, a Polícia Federal deflagrou 12 operações relacionadas a apostas ilegais e manipulação de resultados esportivos, resultando em 73 mandados de busca e apreensão e 15 de prisão. No mesmo período, a PF pediu à Justiça o bloqueio ou sequestro de R$ 4,17 bilhões em bens e valores vinculados às apurações.