247 – Relatórios de inteligência da Polícia Federal (PF) indicaram que o ministro André Mendonça, do STF, teria adotado critérios diferentes ao analisar situações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e ACM Neto (União Brasil), candidato ao governo da Bahia. Os documentos foram revelados em decisão do ministro Alexandre de Moraes nesta quinta-feira (3). A informação foi divulgada pela coluna de Mônica Bergamo. 

O material aponta que investigadores viram possível diferença de tratamento conforme o grupo político das pessoas citadas nas apurações. De acordo com a PF, Mendonça teria afirmado, em reunião, que ACM Neto exercia uma atividade de representação de interesses “dentro dos limites permitidos”. Para os investigadores, essa avaliação indicaria que, naquele momento, o ministro não via irregularidade na atuação do candidato baiano.

O relatório compara essa leitura com o tratamento dado a Lulinha. A PF afirma que os dois casos poderiam apresentar situações semelhantes, mas teriam recebido critérios distintos de análise. O documento registra a possibilidade de adoção de “padrões probatórios distintos” conforme a identidade política dos investigados.

“Em reunião presencial de 13/8/2026, o relator [Mendonça] manifestou percepção de que ACMNeto, candidato ao Governo da Bahia, aparentaria estar exercendo atividade de representação de interesses dentro dos limites do permitido. A situação fática apurada quanto a ele guarda similaridade relevante com a de Fábio Luís Lula da Silva o que sugere a adoção de standards probatórios distintos conforme o espectro político da pessoa envolvida nos fatos”, diz o relatório citado por Moraes.

Crise interna no STF

As novas informações vieram à tona em meio a uma crise aberta no STF. O ministro André Mendonça pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, que determine o afastamento de Alexandre de Moraes.

Mendonça anunciou a iniciativa depois de Moraes enviar a Fachin relatórios da Polícia Federal que teriam apontado “fortes indícios” de irregularidades atribuídas ao ministro na condução das operações Sem Desconto e Compliance Zero.

Moraes tomou a decisão no âmbito do Inquérito 4.781, conhecido como inquérito das fake news. O ministro também retirou o sigilo da decisão e dos documentos mencionados, além de determinar que a PGR (Procuradoria-Geral da República) tome ciência do caso.

Segundo Moraes, os relatórios de inteligência da PF foram produzidos após a identificação de supostas irregularidades na condução das duas investigações. As operações Sem Desconto e Compliance Zero têm relação com apurações sobre suspeitas de fraudes financeiras e bancárias.

Material sobre Vorcaro e Moraes

Antes da reação de Moraes, André Mendonça havia retirado o sigilo de material da PF sobre mensagens entre Daniel Vorcaro, ex-banqueiro ligado ao Banco Master, e Alexandre de Moraes. O ministro Alexandre de Moraes não responde formalmente como investigado.

Um dos principais pontos do material envolve o contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, pertencente a Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF. Metadados de uma minuta encontrada no celular de Vorcaro indicam que um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” modificou o documento.

As conversas também apontam que Vorcaro tratava o acordo como uma prioridade. O banqueiro pediu a seu então sócio Angelo Silva que restringisse o acesso ao contrato. Em março de 2025, depois de constatar a falta de um pagamento, cobrou medidas imediatas e classificou o acerto como o “contrato mais importante” do banco.

O material apreendido pela PF registra ainda contatos entre Vorcaro e Moraes nos dias anteriores à primeira prisão do banqueiro, em novembro de 2025. Em uma mensagem, Vorcaro demonstrou gratidão ao ministro e à família dele. Em outra, pediu uma reunião para o dia seguinte.

Registros divulgados nesta terça-feira também mostram que o banqueiro consultou Moraes sobre a possibilidade de deixar o país antes da prisão. Os documentos mencionam ainda encontros presenciais entre os dois.

As mensagens preservadas partiram de Vorcaro. Esses registros não trazem eventuais respostas atribuídas ao ministro. Assim, apenas com esse material, não é possível definir como Moraes teria reagido aos pedidos feitos pelo banqueiro.

Outro elemento divulgado envolve cartões de crédito do Banco Master emitidos para filhos de Moraes, com limites de até R$ 300 mil. Segundo as mensagens, o pedido partiu do administrador do escritório Barci de Moraes e chegou diretamente a Vorcaro. O banqueiro autorizou o encaminhamento da solicitação. O escritório confirmou a emissão dos cartões, mas afirmou que eles nunca foram usados.

Disputa amplia tensão no Supremo

O embate entre Mendonça e Moraes ampliou a tensão institucional no Supremo. De um lado, Mendonça tornou público material da PF sobre mensagens envolvendo Vorcaro e Moraes. De outro, Moraes enviou a Fachin relatórios que apontam suspeitas sobre a atuação de Mendonça em investigações sob sua relatoria.

A menção da PF a possíveis “padrões probatórios distintos” nos casos de Lulinha e ACM Neto adiciona novo elemento à disputa. O relatório coloca sob análise não apenas decisões processuais, mas também o critério usado na condução de apurações com personagens de campos políticos diferentes.