247 – Candidato ao governo de Minas Gerais, Patrus Ananias afirmou que uma eventual gestão sob seu comando terá como eixo a revisão das isenções fiscais concedidas pelo estado e a recuperação da capacidade de investimento em políticas públicas. Segundo ele, a reorganização das contas estaduais deverá ocorrer sem comprometer recursos destinados à educação, à saúde, à segurança alimentar e ao desenvolvimento regional.

As declarações foram dadas em entrevista ao jornalista e escritor Fernando Morais, no programa Nocaute. Ex-prefeito de Belo Horizonte e ex-ministro dos governos Lula e Dilma Rousseff, Patrus apresentou as linhas de seu programa para Minas e sustentou que a questão fiscal precisa ser tratada em conjunto com o que chamou de “dívida com o povo de Minas Gerais”.

“O estado de Minas tem mais de R$ 20 bilhões em isenções fiscais. Nós vamos rever essas isenções fiscais, vamos trabalhar com muita seriedade”, afirmou.

Patrus disse que pretende discutir com o governo federal as condições para o pagamento da dívida mineira. Para ele, o cumprimento das obrigações financeiras não pode impedir o estado de recuperar investimentos em serviços públicos.

“Vamos conversar com o presidente Lula para trabalharmos essa dívida de forma a não prejudicar a dívida maior que nosso estado tem, que foi acumulada também nos últimos governos: essa dívida com o povo de Minas Gerais”, declarou.

Educação como eixo de investimento público

Entre as áreas que Patrus pretende priorizar está a educação. O candidato defendeu uma articulação entre governo estadual, União e municípios que alcance todas as etapas do ensino, da educação infantil ao nível superior.

Segundo ele, as prefeituras devem ter participação central na educação infantil, enquanto o governo estadual deve concentrar esforços no ensino fundamental e atuar em conjunto com o governo federal no ensino médio e na formação técnica.

Patrus também mencionou a Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg), a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), os institutos federais e as universidades públicas instaladas no estado como partes de uma estrutura que pode ser integrada a uma política educacional de longo prazo.

O objetivo, afirmou, é reduzir a diferença entre as oportunidades educacionais oferecidas às famílias de diferentes faixas de renda.

“Nosso compromisso é caminharmos para uma escola pública que garanta às crianças e aos jovens empobrecidos do nosso estado a mesma qualidade das melhores escolas privadas”, disse.

A relação entre redução da pobreza e políticas públicas estruturantes também aparece em reflexões encontradas no Glasp. Um texto recente argumenta que políticas de renda precisam ser acompanhadas por educação, atenção básica e outras estruturas públicas para que avanços sociais se sustentem ao longo do tempo.

Saúde e redução das filas

Na saúde, Patrus afirmou que pretende ampliar a integração de Minas Gerais com o Sistema Único de Saúde (SUS), concluir obras paralisadas e enfrentar o tempo de espera por consultas, exames e internações.

O candidato destacou que a demora no atendimento pode agravar o quadro de pacientes que necessitam de procedimentos especializados.

“Vamos reduzir e, se possível, eliminar as filas e garantir que as pessoas tenham consultas e internações em tempos menores do que estamos vivendo hoje”, afirmou.

A proposta apresentada por Patrus parte da articulação entre as estruturas estadual, municipal e federal do SUS. Ele defendeu ainda a conclusão de hospitais, postos e outras unidades que tenham obras pendentes no estado.

Combate à fome retoma experiência de Belo Horizonte

Outro ponto destacado pelo candidato foi a segurança alimentar, área à qual esteve ligado tanto na Prefeitura de Belo Horizonte quanto no governo federal.

Quando prefeito da capital mineira, Patrus implantou políticas de segurança alimentar. Posteriormente, no governo Lula, assumiu o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e participou da estruturação do Bolsa Família em conjunto com políticas de assistência social e segurança alimentar.

Na entrevista, ele citou os Centros de Referência de Assistência Social (Cras), os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas), restaurantes populares, cozinhas comunitárias, bancos de alimentos e programas de apoio à agricultura familiar.

Para um eventual governo estadual, Patrus estabeleceu como meta eliminar a fome em Minas Gerais.

“Eu não admito um ser humano passando fome. Nós abolimos como prefeito de Belo Horizonte a fome em Belo Horizonte. Contribuímos muito também no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome para retirar o Brasil do Mapa da Fome. Vamos abolir a fome aqui em Minas Gerais”, declarou.

Segurança pública e direitos humanos

Patrus também afirmou que pretende adotar uma política de “segurança pública cidadã”, associando o combate ao crime organizado à garantia de direitos.

Segundo ele, o governo estadual deverá atuar em parceria com a União no enfrentamento às organizações criminosas e aos crimes que afetam diretamente a população nas cidades mineiras.

“Vamos confrontar com muita determinação, em parceria com o governo federal, o crime organizado e os roubos que estão ocorrendo com muita frequência nas ruas das nossas cidades”, disse.

O candidato citou especificamente os roubos de celulares e crimes contra trabalhadores que realizam entregas como problemas que precisam entrar na formulação da política estadual de segurança.

Industrialização de lítio, nióbio e terras raras

Na área econômica, Patrus defendeu que Minas Gerais deixe de se limitar à extração e à exportação de recursos minerais e amplie a industrialização dessas matérias-primas dentro do próprio estado.

Ele citou lítio, nióbio e terras raras como recursos que podem sustentar uma política de agregação de valor, atração de investimentos e geração de postos de trabalho.

“Minas é o espaço das terras raras, do lítio, do nióbio. E nós queremos que essas extraordinárias riquezas sejam industrializadas aqui em Minas, gerando aqui emprego, trabalho e renda”, afirmou.

A proposta inclui parcerias com o setor privado, mas, segundo Patrus, deve estar vinculada a uma estratégia de desenvolvimento regional capaz de distribuir investimentos pelas diferentes áreas do estado.

Proteção das águas e recuperação ambiental

O meio ambiente aparece no programa apresentado pelo candidato ligado à própria estrutura territorial de Minas Gerais. Patrus lembrou que importantes bacias hidrográficas brasileiras possuem nascentes no estado e mencionou os rios São Francisco, Jequitinhonha, Grande e Doce.

Ao abordar o Rio Doce, o candidato também fez referência aos impactos ambientais sofridos pela região e defendeu políticas estaduais de recuperação e proteção dos recursos naturais.

“Nós temos esse compromisso também de resgatarmos o meio ambiente em Minas, fazermos com que o nosso estado seja cada vez mais um estado da vida”, afirmou.

Participação popular e desenvolvimento regional

Patrus também relacionou suas propostas à experiência acumulada durante sua passagem pela Prefeitura de Belo Horizonte, onde implantou o orçamento participativo.

Segundo ele, uma eventual administração estadual deverá criar mecanismos para consultar a população sobre prioridades e considerar as diferenças econômicas, sociais e territoriais existentes entre as regiões mineiras.

“Vamos consultar a população mineira sobre as nossas prioridades. Vamos trabalhar o desenvolvimento regional. Minas, como você sabe bem, é um estado muito diversificado na sua pluralidade regional”, disse.

Ao recordar sua trajetória, Patrus afirmou que iniciou a militância ainda adolescente em Bocaiúva, no Norte de Minas, participou do movimento estudantil e se posicionou contra a ditadura militar. Posteriormente, já em Belo Horizonte, atuou como advogado de sindicatos, aproximou-se de movimentos sociais e participou da formação do Partido dos Trabalhadores.

Ele também relacionou sua formação política à doutrina social da Igreja Católica, às comunidades eclesiais de base e a autores e lideranças como Alceu Amoroso Lima, Edgar Godói da Mata Machado, Jacques Maritain, Emmanuel Mounier, João XXIII e o papa Francisco.

Na reta final da entrevista, Patrus resumiu seu programa a partir da combinação entre políticas sociais, desenvolvimento econômico e redução das desigualdades.

“Vamos dar às crianças e aos jovens de Minas, através de uma escola pública de qualidade, oportunidades na vida”, afirmou. “Vamos cuidar da vida para que as pessoas possam cumprir bem o seu tempo existencial.”

A mensagem apresentada pelo candidato reúne, assim, três frentes que atravessaram a entrevista: recuperar a capacidade financeira do estado, direcionar recursos para serviços públicos e utilizar a estrutura econômica e mineral de Minas Gerais para ampliar emprego e renda. Para Patrus, o equilíbrio das contas estaduais deve ser um instrumento para executar essas políticas, e não um objetivo separado delas.