Enquanto o pobre de direita e o pobre de esquerda se digladiam por um poder que não têm, a classe financeira dominante, ambidestra, dona de bancos, das megaseguradoras, do agronegócio e das operadoras de fundos trilionários de investimentos, transforma milionários em bilionários e bilionários em trilionários. Essa mesma classe ambidestra sempre lucra horrores em governos de “cara” e de “coroa”, continuamente aumenta sua fortuna em governos de “cara e de coroa” e estrategicamente financia muitos dos governantes e parlamentares para enxugar gelo.
No máximo o que um governante, que tenha boa intensão, faz neste esquema é realizar mitigações temporárias nas enormes perdas dos trabalhadores, mas não é nada duradouro. E tudo piorou enormemente com a polarização fanática que foi feita na sociedade. Atualmente criticar um líder de “cara” ou de “coroa” é um crime inadmissível, sujeito a processos, cancelamentos digitais e até agressões físicas. Mesmo que a crítica tenha algum sentido, o crítico incorre nestes riscos. Eu mesmo, por exemplo, já fui excluído de alguns grupos devido a ter me posicionado contra certas ações políticas esdrúxulas, mas não me privo de continuar a criticar se assim necessário for.
O cenário político brasileiro se transformou em algo que muitas vezes lembra muito uma torcida organizada, à la “Hooligans”, outras vezes se assemelha a um fã-clube e frequentemente parece uma seita fundamentalista religiosa à espera de um avatar. E o mais interessante e lamentável é que vemos este fenômeno surgir em grande parte do planeta. Algo que com certeza foi provocado pela profunda crise do capitalismo, a qual foi amplificada por décadas de neoliberalismo e que na atualidade nos colocou na maior concentração de renda e riquezas da História.
Atualmente podemos acompanhar e constatar nas notícias e muitas vezes na pele o ressurgimento do nacional-chauvinismo em suas diversas faces. Em um país se manifesta através do fascismo, em outro através do nazismo. Ressurgiu com toda a força a estratégia de criar inimigos imaginários para esconder o real problema que está ocorrendo. Em um local a culpa é atribuída aos imigrantes, em outro aos povos originários, em outro são os negros, em outros são os LGBTs, em outros são os comunistas, em outros são os muçulmanos e por aí vai. Sempre tem que se encontrar um inimigo imaginário para esconder a falência do sistema capitalista na sua face neoliberal e para justificar atrocidades, como, por exemplo, o que vemos acontecer no genocídio em Gaza, no sul do Líbano e na perseguição dos imigrantes nos EUA.
O momento atual é ideal para que ressurjam estas ideologias nefastas, pois devido à falência do capitalismo e à grande divisão que foi feita na sociedade, não há uma unidade forte o bastante que seja suficientemente poderosa para combater o fortalecimento destas ideologias nacionais chauvinistas. Para piorar a situação, a extrema-direita se mostra muito hábil no uso das redes sociais como instrumento de domínio de mentes e corações e assim continua a se expandir mundo afora.
Após décadas de propaganda neoliberal nos meios de comunicação, é muito injusto julgar alguém que continua a acreditar nas falácias do neoliberalismo, chamando-o, por exemplo, de pobre de direita. Absurdos, como, por exemplo, a meritocracia, se tornaram senso comum na sociedade, ou seja, as pessoas repetem essas propagandas neoliberais sem sentido, as tomando como sendo verdades absolutas, afinal, este é o objetivo da propaganda. E como podemos julgar essas pessoas que só têm tempo de trabalhar e chegar em casa para dormir para partir novamente para um novo dia de trabalho pesado? O favelado e o periférico não têm tempo para ficar lendo sobre (Geo) política, (Geo) economia ou para estudar filosofia. O sujeito está vendendo o almoço para comprar a janta, trabalhando 16 horas ou mais por dia para tentar sobreviver em uma economia “uberizada”, e ainda por cima é chamado de isso ou daquilo por estes que tiveram condições materiais que lhes permitiram acessar algum tipo de conhecimento mais elaborado sobre política, economia, filosofia, etc. Este tipo de julgamento não acrescenta nada, além de ser totalmente injusto e sectário, pois mostra como as forças da esquerda progressista se afastaram da dura realidade das favelas e periferias.
Como podemos julgar alguém se deste nos distanciamos de caso pensado? Designações como “pobre de direita”, “coxinha”, “pão com mortadela” se tornaram comuns nessas torcidas organizadas da política brasileira. Esse sectarismo não acrescentou nada no que diz respeito à expansão dos direitos dos trabalhadores e, pior, aumentou ainda mais a divisão do povo brasileiro.
É realmente muito triste e decepcionante quando vemos aqueles que tiveram melhores condições, ao invés de buscar uma maior aproximação, intensificam o distanciamento utilizando designações que ao invés de unir, separam.
Antes estávamos presentes através de atividades sociais nas comunidades, mas após o distanciamento que houve após a institucionalização da política, foi aberto um espaço imenso para forças reacionárias invadirem as favelas e periferias. E como sempre, os espaços vazios acabam por ser preenchidos. Estes espaços foram preenchidos justamente pelas igrejas de fanatização que estão eleitoralmente ligadas à extrema-direita.
E em quem você acha que o membro deste tipo de igreja irá votar?
Irá votar no candidato que aparece para pedir voto de dois em dois anos?
Ou irá votar no candidato que o pastor de sua igreja indica? O pastor é que o acolhe, o escuta, o aconselha quando ele está com algum problema e faz pregações nos cultos de sua igreja durante todo o ano?
A resposta é óbvia. E o pior, é que estes que estão sendo acolhido por estas igrejas de fanatização estão sendo chamados de pobre de direita, ou seja, estão sendo afastados cada vez mais da esquerda progressista, ou melhor dizendo de forma metafórica: estão sendo entregues de bandeja para a extrema-direita.
Uma grande mudança de postura deve ser tomada pelas forças da esquerda progressista. Voltar a estar juntos em trabalhos comunitários e a ouvir a necessidade destas pessoas é de extrema necessidade para barrarmos o crescimento do extremismo de direita. Estas pessoas precisam se sentir incluídas nas pautas da esquerda progressista e, para isso, esse retorno a esta população tem que começar a ser feito, caso contrário, a extrema-direita continuará a se expandir.
E o detalhe é o seguinte, independente como sejam chamados os pobres, eles têm uma pauta em comum. Querem acesso à saúde, educação, transporte de qualidade, esporte, lazer, emprego e à segurança pública que realmente funcione. São estas pautas que têm que ser trabalhadas junto a eles, em seu dia a dia. Mas antes de tudo, eles têm que voltar a ser ouvidos e, para isso, as forças da esquerda progressista têm que se reaproximar deles para os escutar, pois eles têm muito a nos ensinar. Não adianta querermos impor nossa vontade sobre as necessidades deles. Temos, sim, que ouvir para saber como podemos atuar para trabalhar para que eles sejam atendidos segundo as suas necessidades prioritárias. E para isso, um grande passo é eliminarmos com urgência estas designações sectárias que afastam ainda mais eles de nós, pois em realidade não existem “eles” e “nós”, o que existe somos todos nós unidos na construção de um Brasil e de um mundo melhor.






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