A prisão de um procurador-geral na Bolívia, sob acusações de narcotráfico, acende um alerta sobre a suposta interferência externa em processos políticos na América Latina. O evento ocorreu após o procurador iniciar investigações sobre Fernando Cerimedo, detido em agosto de 2026 por violência doméstica e tentativa de feminicídio, e também apontado como figura central em um esquema de manipulação digital que afetaria a soberania de países latino-americanos.

Cerimedo, conhecido por uma transmissão ao vivo em novembro de 2022 que questionava a vitória eleitoral de Lula, é acusado de contratar pistoleiros para agredir sua ex-companheira. A vítima, após sobreviver ao ataque, revelou que Cerimedo estaria envolvido em uma complexa rede de agressão à soberania dos povos da América Latina. O esquema envolveria a criação de “fazendas de likes” – estruturas com centenas de celulares e contas falsas para inflar interações em redes sociais – para influenciar a opinião pública e algoritmos digitais.

A Evolução das Táticas de Influência Digital

Originalmente, essas “fazendas de likes” operavam majoritariamente no leste asiático, apresentavam altos custos e baixa controlabilidade. Além disso, as próprias grandes empresas de tecnologia (big techs) desenvolveram mecanismos para detectar e neutralizar essas influências, como a auditoria de visualizações do YouTube, que em dezembro de 2012 removeu bilhões de visualizações infladas. Cerimedo, no entanto, teria aprimorado essas táticas, instalando infraestruturas de influência digital na América Latina e supostamente colaborando com o governo dos EUA para utilizar as big techs como ferramentas de política externa, driblando os controles e direcionando fluxos de pagamento para financiar a desestabilização de regimes.

As investigações sobre Cerimedo revelaram que o governo de Donald Trump teria se beneficiado dessas táticas, e o próprio Cerimedo teria sido homenageado e atuado como um 'eminência parda' em alguns governos eleitos por meio dessas estratégias. Fotos de Cerimedo com Donald Trump Jr. e o ex-chefe de campanha de Trump vieram à tona, sugerindo uma possível ligação entre a administração Trump e o esquema.

Impactos na Política Sul-Americana

A prisão do procurador boliviano, logo após iniciar a investigação sobre Cerimedo, levanta questionamentos sobre a fragilidade das instituições democráticas na região e a influência de potências estrangeiras. A acusação de narcotráfico contra o procurador foi apresentada por Washington, gerando comparações com táticas históricas usadas pelos EUA para desestabilizar governos na Guerra Fria. O episódio na Bolívia, somado a outros contextos como Venezuela, Argentina, Peru e Colômbia, sugere um padrão de intervenção.

Analistas políticos expressam preocupação com a possível expansão dessas táticas, alertando que líderes e instituições no Brasil, incluindo ministros do Supremo Tribunal Federal, poderiam ser alvos de estratégias semelhantes. A não reação da América Latina à prisão do procurador boliviano, e a falta de reconhecimento da eleição de Nicolás Maduro na Venezuela, são vistas como falhas que podem ter custos elevados para a estabilidade democrática da região.

O cenário atual é descrito como um risco de retorno a um período de instabilidade, onde a violência seletiva e a intervenção estrangeira poderiam comprometer a soberania dos países latino-americanos. A situação sugere uma inversão, não apenas aos anos 1960, mas a um retorno a dinâmicas do século XVI, com a imposição de agendas externas e o enfraquecimento das democracias locais.