A Folha de S.Paulo, em editorial divulgado nesta sexta-feira, teceu críticas a membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alegando que suas ações prejudicaram a imparcialidade das eleições presidenciais. O foco principal da crítica foi uma série de decisões judiciais que modificaram e, posteriormente, resultaram no cancelamento do debate da TV Globo, previsto para a noite de quinta-feira (1º).

O periódico criticou o ministro Gilmar Mendes por uma decisão que, segundo a Folha, beneficiaria o presidente Lula ao determinar a inclusão de Renan Santos, do 'Missão', no debate. A ministra Estela Aranha, do TSE, também foi alvo de críticas por proibir a emissora de exibir o púlpito vazio reservado ao presidente, que havia confirmado sua ausência.

Decisões judiciais e o debate cancelado

A decisão da ministra Estela Aranha impediu que a Globo mantivesse em cena o púlpito com o nome de Lula e também vedou que os outros candidatos dirigissem perguntas ao presidente ausente. A ministra fundamentou sua decisão explicando que a prática poderia ser usada para pressionar candidatos a participar, apesar de ser facultativo. A Folha argumenta que a exibição de lugares vazios tem precedentes, inclusive em debate da própria Globo em 2006, quando Lula também não compareceu, embora um precedente jornalístico não confira a prática um direito absoluto.

Sobre a decisão do ministro Gilmar Mendes, que determinou a participação de Renan Santos no debate invocando liberdade de expressão e pluralismo político, o jornal expressou indignação. Embora haja uma controvérsia jurídica legítima e a possibilidade de se discutir a competência e o rito da decisão, a Folha questiona a conclusão de que o ministro agiu para favorecer um candidato ou prejudicar outro. A inclusão de mais um candidato no debate não é, por si só, incompatível com o princípio de que debates servem para ampliar a circulação de ideias.

O cancelamento e o formato dos debates

É importante ressaltar que os juízes não proibiram a realização do debate. A TV Globo decidiu cancelar o evento após receber as decisões judiciais, alegando mudanças nas regras previamente acordadas. O presidente Lula já havia comunicado sua ausência, optando por uma entrevista ao Flow Podcast. O editorial da Folha, contudo, falha ao abordar a questão do esgotamento do próprio modelo de debate televisivo.

O que deveria ser um aprofundado confronto de propostas para o país frequentemente se transforma em uma sequência de provocações e espetáculo. A ideia de permitir perguntas a um púlpito vazio seria a materialização dessa degeneração, sem possibilidade de resposta ou contraditório. Ao impedir tal mecanismo, a Justiça Eleitoral impediu que um espaço vazio se tornasse parte de um espetáculo televisivo.

Embora a imprensa tenha o papel de fiscalizar o Judiciário e questionar decisões, é fundamental separar fatos de interpretações. As decisões judiciais em questão impediram o uso eleitoral de um púlpito vazio e ampliaram a participação em um debate. A Globo, discordando das determinações, optou pelo cancelamento. O editorial da Folha, ao transformar automaticamente uma divergência jurídica em prova de parcialidade eleitoral, gera barulho, mas pouco esclarecimento, defendendo um modelo de debate que se aproxima mais do espetáculo do que da discussão séria sobre o futuro do Brasil.