A extrema direita não se apoia apenas em ideias, mas também em afetos, como o ressentimento, a sensação de perda e a humilhação. Para compreender sua força política, a cientista política Wendy Brown destaca que há um elemento anterior à escolha racional: o desejo de recuperar uma potência percebida como roubada. Em sua análise da racionalidade neoliberal, Brown argumenta que a desintegração do espaço público e a transformação dos indivíduos em concorrentes geram um sentimento de desamparo político. Quando a construção coletiva é perdida, a frustração busca um culpado, e a identificação com um líder oferece ao indivíduo uma força que ele não encontra em si mesmo. O líder, então, funciona como um espelho, projetando a autoridade e o poder que o sujeito almeja, transformando a política em uma guerra moral onde a humilhação do outro eleva a percepção da própria força.

Flávio Bolsonaro e o uso do ressentimento

No Brasil, a figura de Flávio Bolsonaro exemplifica essa dinâmica, pois ele representa um movimento que transformou o ressentimento em identidade e a agressividade em linguagem de poder. A imagem de força, muitas vezes superficial, adquire grande importância, como demonstrado pela repercussão de sua foto com sunga branca e faixa presidencial. Contudo, o aspecto cômico não deve desviar a atenção da seriedade da política que ele representa. Alianças políticas de Flávio Bolsonaro revelam uma preocupante proximidade com figuras envolvidas em atividades ilícitas. Em fevereiro, ele escolheu o prefeito Márcio Canella para seu palanque no Rio, que havia nomeado indivíduos condenados por milícia para secretarias municipais. Posteriormente, Canella foi alvo de investigação da Polícia Federal por lavagem de dinheiro.

Em julho, uma investigação da Folha revelou que uma assessora de Flávio Bolsonaro negociou emendas parlamentares com Robson Calixto, o “Peixe”, condenado pelo STF por integrar a milícia envolvida no assassinato de Marielle Franco. A Polícia Federal apontou a assessora como interlocutora direta do miliciano no gabinete do senador, identificando indícios de proximidade entre Calixto e o próprio Flávio. A defesa do candidato alega que os repasses foram legais e seguiram critérios técnicos. Esse padrão de alianças não é inédito, já que Flávio, como deputado estadual, condecorou Adriano da Nóbrega, apontado como chefe de milícia.

O Estado como propriedade e a fantasia de potência

A psicanálise encontra na política um campo de estudo brutal, onde o discurso da ordem pode coexistir com a proximidade de estruturas que operam com violência. A promessa de segurança, por sua vez, pode caminhar lado a lado com relações que utilizam a intimidação como instrumento de poder. O que está em questão, portanto, transcende a simples ocupação de cargos, questionando qual tipo de Estado se pretende construir. Quando o Estado deixa de ser visto como um bem comum para ser imaginado como propriedade de um grupo, a República pode ser convertida em patrimônio dos vencedores e seus aliados.

Essa fantasia de potência não é apenas individual; ela se torna um projeto de poder. O líder promete restaurar uma grandeza perdida e devolver o orgulho aos humilhados, mas por trás dessa promessa, pode residir apenas a velha operação do ressentimento: transformar a própria impotência em desejo de domínio. Wendy Brown nos ajuda a compreender como a agressividade, notada por Freud nos vínculos humanos, pode ser canalizada pela extrema direita, transformando frustração em ódio, medo em autoridade e ressentimento em um programa político. Rir da "sunga branca" pode ser um erro, pois ela é apenas a imagem mais grotesca de uma fantasia mais profunda: a crença de que o poder existe para devolver a alguns o que eles julgam ter perdido, mesmo que isso signifique transformar o Estado em propriedade privada de uma tribo política. Uma República não sobrevive quando deixa de ser de todos.