A história da fé no Brasil é um emaranhado de devoção popular e disputas políticas, exemplificada pela figura de Nossa Senhora Aparecida. Em 31 de maio de 1931, a santa foi oficialmente proclamada Padroeira do Brasil, formalizando uma ligação que já existia desde a descoberta da imagem por três pescadores em 1717 no rio Paraíba do Sul. Essa fé profunda, presente em romarias, celebrações e até em manifestações culturais como o futebol, reflete uma religiosidade intrínseca ao povo brasileiro.

A religião no Brasil sempre foi influenciada por uma história de violências e resistências. A catequese jesuítica impôs valores europeus aos povos originários, enquanto as crenças africanas foram perseguidas, mas resistiram e deram origem a novas expressões, como a Umbanda. Essa diversidade religiosa é um espelho tanto da colonização quanto da capacidade de superação do povo.

Disputas e a instrumentalização da fé

A fé também se manifestou em movimentos de resistência, como o arraial de Canudos, liderado por Antônio Conselheiro em 1893. Milhares de sertanejos, ex-escravizados e indígenas se uniram em uma comunidade com partilha de recursos, desafiando as autoridades republicanas. O povoado foi brutalmente destruído entre 1896 e 1897, exemplificando a violência das elites contra os mais pobres e a instrumentalização da religião como justificativa para o conflito.

Recentemente, a discussão sobre a Padroeira do Brasil foi reacendida por uma notícia sobre uma suposta tentativa de retirar o título de Nossa Senhora Aparecida. Embora a informação tenha sido negada e não haja uma proposta em tramitação que confirme a intenção de Flávio Bolsonaro de rebaixar a santa, o tema gerou alerta. Um precedente de 2007, quando um projeto tentou alterar o termo “Padroeira do Brasil” para “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos” na lei do feriado de 12 de outubro, demonstra que a questão já chegou ao Congresso Nacional.

Outro ponto de debate é a declaração de Flávio Bolsonaro de que, se eleito, decretaria o Brasil como “do Senhor Jesus Cristo”. Embora a fé seja um direito individual, a promessa de um candidato à Presididência de vincular o Estado a uma crença específica levanta preocupações em um país plural, com católicos, evangélicos, religiões de matriz africana, e pessoas sem religião. O Estado brasileiro, desde a Constituição de 1946, defende a liberdade de escolha e prática religiosa para todos os cidadãos.

A instrumentalização de símbolos religiosos pela extrema direita para mobilizar eleitores e deslegitimar adversários é uma prática que precisa ser combatida. A defesa do respeito a Nossa Senhora Aparecida não implica atribuir projetos infundados, mas sim assegurar que a devoção popular não seja convertida em arma eleitoral e que a liberdade de crença de todo o povo brasileiro seja respeitada e protegida.