A disseminação do negacionismo eleitoral pelo mundo é comparada a uma crise sanitária global, com Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos, sendo o principal responsável por impulsionar essa onda. Essa avaliação foi feita por Kevin Casas-Zamora, secretário-geral do Instituto Internacional pela Democracia e Auxílio Eleitoral (Idea), uma organização intergovernamental sediada na Suécia.

Em um relatório divulgado pela instituição, o Idea estabelece uma conexão direta entre o enfraquecimento democrático promovido por Trump e o surgimento ou fortalecimento de movimentos autoritários em diversas nações, incluindo o Brasil. A análise aponta que o ataque antidemocrático ocorrido em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, teve como precedente a invasão do Capitólio nos EUA, em 2021, por militantes incentivados por Trump para reverter o resultado da eleição presidencial. Casas-Zamora descreve Trump como o “paciente zero” dessa onda de contestação infundada da integridade dos processos eleitorais, que tem desafiado as democracias ocidentais nos últimos cinco anos.

Cenário brasileiro e a salvaguarda da democracia

Apesar do alerta global, o relatório anual do Idea destaca uma recuperação nos índices democráticos do Brasil. O país subiu 12 posições na categoria “direitos” de 2025 para 2026. Segundo o diretor da instituição, essa melhora expressiva é atribuída ao “efeito rebote”, pois o Brasil havia registrado uma queda abrupta nesses indicadores durante a gestão de Jair Bolsonaro, período marcado por ataques à liberdade de imprensa, à credibilidade do sistema eleitoral e à independência do Poder Judiciário. O levantamento também indica avanços no Estado de Direito no Brasil, colocando-o à frente de nações como Argentina, Colômbia, Índia e Hungria.

Questionado sobre as críticas da extrema direita ao Judiciário brasileiro, Casas-Zamora optou por não intervir na política interna, mas reconheceu o papel fundamental do Supremo Tribunal Federal (STF) na proteção da democracia, ao assegurar a integridade das urnas. Ele enfatizou que o Brasil serve de exemplo ao demonstrar que acusações infundadas que prejudicam as instituições devem gerar consequências políticas para seus proponentes.

Interferência externa e o futuro democrático

Casas-Zamora também abordou a interferência dos Estados Unidos na América Latina e nas eleições brasileiras, observando que a ingerência de Washington tem se manifestado de forma mais explícita. Ele citou exemplos como o apoio a candidaturas de extrema direita na região, incluindo a de Flávio Bolsonaro no Brasil, a promessa de suporte financeiro ao governo de Javier Milei na Argentina em contexto eleitoral e incursões na Colômbia e em Honduras. Além das declarações políticas, a pressão se estendeu a processos judiciais brasileiros, como as tentativas de aliados do bolsonarismo de obter sanções americanas contra magistrados do STF após a condenação de Jair Bolsonaro.

Apesar do impacto nocivo das intervenções externas e do uso desproporcional de recursos financeiros nos pleitos, o secretário-geral ressalta que, na ausência de provas de alteração direta no comportamento do eleitor, deve-se presumir a transparência e a legitimidade das eleições no Brasil. Ao considerar uma possível vitória da extrema direita com Flávio Bolsonaro, Casas-Zamora ponderou que a escolha do eleitorado por partidos dessa vertente é uma expressão legítima da vontade popular e um sintoma de descontentamento com a representatividade tradicional. Contudo, alertou que a ameaça real surge quando tais grupos alcançam o poder, momento em que historicamente promovem ataques sistemáticos aos mecanismos institucionais de controle do exercício do poder. Ele alertou que, se um eventual governo de Flávio Bolsonaro repetir a conduta do pai, há motivos concretos para temer retrocessos democráticos.