A paralisação de ônibus em Salvador impediu eleitores de comparecer às urnas no segundo turno realizado em 25 de outubro. Moradores ficaram horas aguardando transporte público que não circulava e precisaram de caronas oferecidas por estranhos para conseguir votar. A Secretaria de Mobilidade (Semob) confirmou que pelo menos 75 ônibus foram retidos nas garagens com justificativa de retirada de adesivos que continham propaganda do candidato Lula (PT).

A investigação da Agência Pública apontou que os adesivos estavam nos veículos com o número do candidato. O secretário da Justiça da Bahia contabilizou 252 ônibus parados em três garagens. O Procon-BA autuou a empresa OT Trans após encontrar 55 veículos no pátio. Entre 13h30 e 16h, uma moradora que circulou pelos principais corredores de transporte não viu um único ônibus passar. Em pontos de embarque normalmente movimentados, havia pessoas esperando horas sem conseguir transporte. "Em ponto de transbordo, que é onde geralmente tem mais ônibus circulando, não tinha ônibus. É surreal", relatou uma das afetadas.

O prefeito Bruno Reis (União Brasil), apoiador da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), negou ter ordenado a redução de circulação. Disse que o atraso ocorreu porque foi necessário retirar propaganda irregular dos veículos, que a operação foi normalizada por volta das 10h30, e criticou a "politização" do episódio.

Ações para garantir votação

O presidente do TRE-BA, desembargador Mauricio Kertzman Szporer, decretou a prisão em flagrante do secretário de Mobilidade, Pablo Souza, às 13h15. Na decisão, argumentou que a retenção "frustra a participação eleitoral dos cidadãos soteropolitanos". O tribunal obrigou a prefeitura a colocar 100% da frota nas ruas em uma hora, com tarifa zero, sob multa de R$ 1 milhão a cada hora de descumprimento. O ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), prorrogou a votação até as 19h em todo o país pouco depois das 17h.

Impacto na votação

Tássia Novaes saiu de carro procurando pessoas que ainda não tinham votado e conseguiu levar cerca de dez eleitores aos locais de votação. Clara Matos percorreu vinte quilômetros da cidade naquele domingo e viu apenas dois ônibus em cinco grandes avenidas. Numa lanchonete, uma funcionária só sairia do trabalho às 16h15 e demoraria mais de uma hora de transporte público para chegar ao seu local de votação; o marido de Clara se ofereceu discretamente para pagar um Uber. Relatos como esse foram compartilhados nas redes.

Maíra Rocha também ofereceu caronas ao longo do dia e transportou seis pessoas até seus locais de votação. Ela hesitou em sair sozinha inicialmente e chamou um amigo para acompanhá-la. Histórias semelhantes circularam no Instagram durante o segundo turno.

Oito dias antes do segundo turno, a Câmara Municipal havia concedido a Flávio o título de cidadão soteropolitano em cerimônia realizada no Farol da Barra, ao lado de um comício do candidato. No primeiro turno, Lula recebeu 65,26% dos votos válidos na capital, sua maior votação entre as capitais brasileiras.