A disputa pelo Palácio do Planalto ganhou um forte apelo econômico e social na reta final da campanha, com o tema do endividamento das famílias em destaque. Na última sexta-feira (25), o presidente Lula anunciou a edição de uma Medida Provisória (MP) para proibir o funcionamento de empresas de apostas de quota fixa, conhecidas como bets, e cassinos virtuais no país.

Reações e propostas

A medida presidencial provocou uma reação imediata dos concorrentes, especialmente do senador Flávio Bolsonaro (PL), que criticou a postura do presidente, classificando-a como “eleitoreira” e o apelidando de “pai do Tigrinho”. A oposição tenta atribuir ao governo atual a responsabilidade pela proliferação das apostas no Brasil, embora a liberação inicial do setor tenha ocorrido em 2018, por meio da Lei nº 13.756/2018, sancionada pelo então presidente Michel Temer (MDB).

A legislação de 2018 exigia a regulamentação e fiscalização da atividade, mas essa exigência foi ignorada durante o mandato de Jair Bolsonaro (PL), permitindo que as empresas operassem sem tributação ou controle. Somente em dezembro de 2023, o governo Lula sancionou a Lei nº 14.790/2023, que visava tributar e fiscalizar esse mercado já consolidado. Diante do aumento de casos de vício e impactos na renda familiar, especialmente entre mulheres e beneficiários de programas sociais, o presidente decidiu editar a MP para proibir os jogos de azar.

Estratégia eleitoral e embate político

Além da MP, que depende de aprovação do Congresso, o presidente Lula também anunciou o envio de um projeto de lei para criminalizar as bets e seus operadores. Paralelamente, o governo lançou o “Desenrola 3.0”, uma nova versão do programa de renegociação de dívidas. Essas ações buscam aproximar o governo do eleitorado de centro, mulheres evangélicas e indecisos. Mapeamentos internos da campanha indicam que mulheres no Sudeste, especialmente mães solo ou chefes de família com companheiros viciados em jogos, são as mais afetadas financeiramente.

Em um evento em São Paulo, Lula comparou o impacto das bets a um problema de saúde pública, defendendo o fim da atividade. Ele afirmou que “é como um câncer. Ou a gente tira o tumor ou o tumor vai matar a gente”. Por outro lado, Flávio Bolsonaro, em evento no Rio de Janeiro, acusou Lula de omissão anterior e criticou a proximidade do anúncio com a eleição. O senador defendeu um modelo intermediário, sendo contra cassinos virtuais, como o “Jogo do Tigrinho”, mas a favor da manutenção das apostas esportivas de quota fixa atreladas a eventos reais.

A postura de Flávio Bolsonaro recebeu críticas do candidato Ronaldo Caiado (PSD), que comparou a liberação de uma modalidade e proibição de outra a “trancar a porta da frente e deixar a janela da casa aberta para o assaltante”. O plano de governo de Caiado não propõe o banimento total, mas sim o endurecimento da fiscalização contra lavagem de dinheiro e restrição da publicidade. O psiquiatra Augusto Cury (Avante) avaliou que os aplicativos de jogos causam “dependência grave” e defendeu o fim ou a taxação severa das bets.