247 – O Ministério Público Eleitoral (MPE) reverteu sua posição inicial e passou a se manifestar formalmente de maneira contrária ao registro da candidatura de Antônio Rueda (União Brasil) ao cargo de deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro. Em novo parecer enviado na última sexta-feira (18) ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), o órgão ministerial sustentou que o presidente nacional da sigla se beneficiou diretamente de uma estrutura político-territorial vinculada a organizações paramilitares atuantes na Baixada Fluminense, informa o jornal O Globo.

De acordo com o documento da Procuradoria Regional Eleitoral, lideranças da região atreladas a milícias podem ter utilizado seu poder de coerção e a sua capacidade de mobilização de eleitores para alavancar a candidatura do dirigente partidário.

A reviravolta no posicionamento do MPE ocorreu após o próprio TRE-RJ ter paralisado a análise do registro de candidatura para solicitar informações e documentos oficiais de diversos órgãos públicos. No primeiro parecer apresentado à Corte, o Ministério Público havia se posicionado favoravelmente ao deferimento da candidatura por entender que as denúncias se baseavam unicamente em certidões genéricas e reportagens da imprensa. No entanto, o órgão destacou que os novos dados oficiais obtidos alteraram profundamente o panorama instrutório do processo.

A decisão de suspender o julgamento de Rueda havia sido tomada pelo tribunal em sessão realizada no dia 11 de setembro. Na oportunidade, a Corte Eleitoral determinou o envio de ofícios à Polícia Federal, à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), à Justiça Estadual e à Prefeitura de Belford Roxo. O intuito das diligências foi averiguar se a campanha do presidente do União Brasil contava com suporte de engrenagens políticas associadas a milicianos na Baixada. A medida ocorreu em paralelo à paralisação do julgamento de Márcio Canella (União), candidato a deputado estadual, investigado por ligações políticas e administrativas com figuras ligadas ao paramilitarismo.

Conforme a nova manifestação da Procuradoria, documentos remetidos pela Prefeitura de Belford Roxo confirmaram que Luiz Eduardo Santos de Araújo, conhecido como Eduardo Araújo, e Fábio Augusto de Oliveira Brasil, apelidado de Fabinho Varandão, ocuparam postos de secretários municipais ao longo do ano de 2025. Ambos foram impedidos pela Justiça Eleitoral de disputar o pleito municipal de 2024 em razão de condenações por participação ou articulação com grupos paramilitares. O órgão ressaltou que a dupla manteve atuação política ostensiva na promoção da dobradinha eleitoral entre Rueda e Canella.

Na avaliação do Ministério Público, chancelar a candidatura nestas condições configuraria uma “fraude” à regra constitucional que veda o emprego de influência paramilitar nas disputas eleitorais. O parecer ministerial, contudo, ainda passará pelo crivo dos julgadores do TRE-RJ, não representando uma sentença judicial definitiva.

Em sua manifestação anexada ao processo, Antônio Rueda rebatizou as alegações e afirmou que não existem provas de conduta irregular cometida por ele. O postulante argumentou que os dois apoiadores citados agiram de maneira autônoma em suas respectivas redes sociais e frisou não possuir condenação, denúncia ou indiciamento criminal contra sua pessoa, invocando o princípio da presunção de inocência. A defesa assinalou ainda que as 153ª, 154ª e 155ª Zonas Eleitorais de Belford Roxo informaram não ter registrado episódios de violência, coação de eleitores, uso de homens armados ou limitação de propaganda na região em favor de sua candidatura ou da de Canella.

A Prefeitura de Belford Roxo declarou que Eduardo Araújo e Fabinho Varandão foram exonerados do quadro municipal em 30 de setembro de 2025, não mantendo qualquer vínculo com a gestão em 2026. A defesa de Rueda ponderou que o candidato jamais exerceu cargo público no município e que não há correlação entre sua campanha e as nomeações efetuadas na prefeitura.

Aposta estratégica na Baixada Fluminense

A aliança política com Márcio Canella constitui o pilar central da estreia eleitoral de Rueda. Natural de Pernambuco e dirigente nacional do União Brasil, o advogado transferiu seu domicílio eleitoral para o Rio de Janeiro em janeiro e concorre pela primeira vez a um mandato parlamentar, após uma trajetória restrita aos bastidores partidários.

A campanha do dirigente concentra seus esforços na Baixada Fluminense, reduto eleitoral de Canella. Durante ato de campanha no bairro Xavantes, em Belford Roxo, realizado em 26 de agosto para cerca de 60 pessoas, Rueda pediu votos expressando o desejo de se consolidar como “o deputado federal de Belford Roxo”. A aproximação entre ambos remonta a 2025, período em que Canella era prefeito do município e Rueda esteve presente em inaugurações, além de ter atuado na articulação para a liberação de R$ 900 milhões em verbas federais para a cidade.

Em julho, Canella foi alvo de prisão no âmbito da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal para investigar uma organização criminosa suspeita de movimentar mais de R$ 7,6 bilhões em esquemas de lavagem de dinheiro por meio de postos de combustíveis. O ex-prefeito também chegou a ser detido por porte ilegal de arma de uso restrito ao ser flagrado com um fuzil em seu veículo. Embora os episódios tenham inviabilizado sua inserção na chapa ao Senado, Rueda manteve a parceria para a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

Trajetória, patrimônio e articulação política

Nascido no Recife, Rueda ascendeu na política nacional como articulador em Brasília até assumir o comando do União Brasil em 2024. O candidato alega ter laços antigos com a capital fluminense, afirmando manter residência no estado desde 2014. Em 2022, adquiriu um apartamento no antigo Hotel Glória, imóvel que consta como seu único bem declarado no Rio de Janeiro.

Sua transferência de domicílio eleitoral inseriu-se em um movimento de articulação mais amplo, no qual o União Brasil evitou formalizar apoio a postulantes ao governo estadual. Rueda manteve contatos tanto com o grupo do prefeito Eduardo Paes (PSD) quanto com interlocutores do campo bolsonarista. Em sua declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral, Rueda informou possuir R$ 75,6 milhões em patrimônio — o maior valor registrado entre os candidatos a deputado federal no Rio de Janeiro —, composto majoritariamente por imóveis situados em Pernambuco, Alagoas e no Distrito Federal.