247 – A cúpula da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a defender que o candidato evite novas manifestações públicas sobre a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) e concentre seus discursos, na reta final do primeiro turno, em temas econômicos e sociais diretamente ligados ao cotidiano da população. A orientação foi revelada pela jornalista Tainá Falcão, da CNN Brasil.

Segundo interlocutores ouvidos pela emissora, a avaliação interna é de que novas declarações de Lula sobre o Supremo podem prolongar a presença da crise no debate eleitoral e prejudicar a estratégia de campanha. Um integrante da coordenação resumiu a posição: “o Supremo tem que sair de vista”.

O alerta ganhou força após Lula elogiar o ministro Alexandre de Moraes por sua atuação em defesa da democracia e criticar André Mendonça por episódios que o presidente associa a vazamentos seletivos de informações de investigações, entre elas as relacionadas ao Banco Master e ao INSS.

A manifestação contrariou uma orientação anterior da própria campanha. Segundo a CNN, aliados já defendiam que Lula evitasse fazer uma defesa direta de Moraes e mantivesse o Executivo afastado das disputas internas do Judiciário. A avaliação era de que “a crise do Judiciário não é nossa, do Executivo”.

Embora integrantes da campanha considerem que Lula procurou defender as instituições, a preocupação é que sucessivas manifestações sobre o STF mantenham o assunto no centro da disputa presidencial e favoreçam a mobilização de setores críticos à Corte.

A crise passou a ocupar espaço significativo na campanha depois da divulgação de mensagens relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e das divergências entre ministros do Supremo sobre a condução de investigações envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça. O episódio chegou ao plenário da Corte e expôs publicamente discordâncias entre ministros.

Aliados de Lula também avaliam que o assunto interrompeu parte do impulso que a campanha pretendia construir nas semanas finais antes da votação. A preocupação aumenta diante da possibilidade de novas sessões do Supremo ocorrerem ainda durante o período eleitoral e recolocarem o tema no centro do noticiário.

O presidente já demonstrou preocupação com a duração do impasse. Lula conversou com o presidente do STF, Edson Fachin, sobre os desdobramentos da crise e procura entender quando os processos envolvendo Moraes e Mendonça voltarão a ser analisados. A avaliação no Palácio do Planalto é de que uma indefinição prolongada pode acompanhar toda a reta final da eleição.

Campanha quer levar discussão para renda e cotidiano

Com a nova orientação, a estratégia é direcionar as manifestações de Lula para temas considerados mais próximos das preocupações dos eleitores. Entre as prioridades estão o fim da escala 6×1, a valorização do salário mínimo, a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), o combate ao endividamento das famílias, a regulamentação das apostas esportivas e a segurança pública.

A mudança já vinha sendo preparada pela campanha. Nos últimos dias, aliados passaram a defender que o chamado “Brasil real” ocupe o centro da comunicação de Lula, com maior atenção a renda, custo de vida e propostas com impacto direto sobre as famílias.

A campanha também pretende ampliar as comparações entre Lula e o candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL). Segundo a apuração da CNN, a estratégia petista é apresentar diferenças de trajetória, experiência política e propostas dos dois candidatos.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem explorado a crise do Supremo em atos eleitorais e buscado associar Lula a ministros da Corte, entre eles Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes.