Um levantamento realizado pela Iron Security, empresa especializada em cibersegurança e inteligência artificial, identificou 697 sites de apostas operando sem autorização no Brasil. O monitoramento, que começou com 103 endereços na segunda-feira (21), registrou um aumento expressivo durante a semana em que a medida provisória que proíbe as apostas no país entrou em vigor, no domingo (27).

Os dados foram divulgados no painel público Bet Legal e detalhados pelo jornal O Globo. Na sexta-feira (25), data da publicação da MP, o sistema contabilizava 340 sites suspeitos, número que saltou para 633 no sábado (26) e chegou a 697 no domingo. A Iron Security, que é parceira da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), ressalta que a inclusão de um site no levantamento indica uma possível irregularidade, mas não confirma que seja ilegal ou fraudulento, já que parte das páginas pode ter sido criada antes da proibição.

Como a detecção funciona

O CEO e fundador da Iron Security, Diego Terrani, explicou que o sistema compara os sites de apostas que surgiram recentemente com a lista de operadoras autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) até a última sexta-feira. Ele esclarece que a ferramenta não julga a intenção dos sites, apenas compara as autorizações. Cada operadora com licença federal podia explorar até três marcas. Os responsáveis pelos sites classificados podem contestar a inclusão na lista, mas até o momento nenhuma contestação havia sido apresentada.

O monitoramento utiliza robôs de automação e agentes de inteligência artificial para localizar as páginas. Um dos primeiros critérios é o domínio: as empresas autorizadas pelo governo federal deveriam operar com domínios terminados em “.bet.br”. Segundo Terrani, nenhum domínio com essa terminação apareceu entre os sites classificados como não autorizados. Após essa verificação, a inteligência artificial analisa o conteúdo do site em busca de informações relacionadas a jogos, solicitações de Pix ou cadastro de cartão de crédito, cruzando os resultados com a lista oficial da SPA.

Riscos e implicações da proibição

Terrani alerta que a saída das empresas autorizadas do mercado brasileiro pode reduzir os mecanismos privados usados para identificar e derrubar páginas fraudulentas. Ele destaca que as casas legalizadas antes da MP utilizavam seus recursos para combater as ilegais, protegendo suas marcas. Com a interrupção dessas operações, abre-se espaço para que sites de qualquer origem criem e anunciem suas plataformas no Brasil, aumentando o risco para os apostadores.

O presidente da ANJL, Plínio Lemos Jorge, concorda que a proibição pode levar à expansão do mercado clandestino. Ele argumenta que a medida impactou as empresas legalizadas que recolhiam impostos, eram fiscalizadas e protegiam públicos vulneráveis. Advogados do setor estudam uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para suspender os efeitos da MP, alegando insegurança jurídica e questionando a interrupção de uma atividade regulamentada. A estimativa é que uma plataforma perca cerca de 15% de seus clientes a cada dia sem operar.

O que diz a Medida Provisória

A Medida Provisória nº 1.394, editada em 25 de setembro de 2026, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos on-line, em todo o território nacional. A norma abrange também operadores sediados no exterior que ofereçam serviços a usuários no Brasil. Novos depósitos nas plataformas foram vetados desde sexta-feira (25). Os apostadores podem retirar saldos até 5 de outubro, e os sites e aplicativos devem sair do ar a partir de 6 de outubro. A MP, que já está em vigor, instituiu um comitê interinstitucional para fiscalizar a publicidade ilegal de apostas.