O milheto surge como um protagonista estratégico no combate à fome e na construção da resiliência climática em países do Sul Global. Sua capacidade de prosperar em regiões áridas e semiáridas, somada à resistência à seca, o posiciona como uma opção viável para sistemas agrícolas impactados pelas alterações climáticas. Essa perspectiva é apresentada em uma análise de pesquisadoras do Observer Research Foundation (ORF).
As especialistas apontam que a insegurança alimentar não tem uma causa isolada, mas resulta de uma combinação de fatores como pobreza, eventos climáticos extremos, urbanização rápida, inflação e dificuldades de acesso a alimentos nutritivos. Nesse cenário complexo, a diversificação das culturas agrícolas, com o milheto, é vista como essencial para reduzir a vulnerabilidade dos sistemas alimentares que dependem excessivamente de poucos cereais.
Valor Nutricional e Desafios de Produtividade
Além de sua adaptabilidade climática, o milheto oferece um perfil nutricional robusto, sendo rico em proteínas, fibras, vitaminas e minerais como ferro e zinco, além de possuir baixo índice glicêmico. A inclusão do cereal na dieta pode auxiliar no combate a deficiências nutricionais, especialmente em áreas onde o acesso a alimentos variados é limitado. No entanto, a simples substituição de culturas tradicionais não é o caminho. Um dos grandes obstáculos é a produtividade, que em muitas variedades de milheto ainda é inferior à de cereais como arroz e trigo.
Para superar esse desafio, as pesquisadoras enfatizam a necessidade de investimentos em pesquisa, aprimoramento de variedades, tecnologia agrícola e métodos de cultivo adaptados às condições climáticas. O objetivo é aumentar a produtividade sem comprometer a principal vantagem do milheto: sua capacidade de crescer em ambientes hostis. A análise propõe um modelo denominado SOW/REAP, com sete frentes de ação que incluem investimento, otimização da produção, ampliação do acesso, reposicionamento no mercado, troca de conhecimentos, pesquisa e desenvolvimento e formação de parcerias.
Políticas Públicas e Impacto Cultural
A expansão do milheto exige o desenvolvimento de toda a cadeia produtiva, desde sementes de qualidade e assistência técnica até armazenamento, processamento e distribuição eficientes. A ausência de infraestrutura adequada pode gerar perdas e encarecer os alimentos. Governos podem estimular a demanda por meio de compras públicas, integrando o milheto em programas de alimentação escolar e outras iniciativas de segurança alimentar. É crucial, contudo, que os benefícios alcancem os pequenos agricultores, especialmente os mais afetados pelas mudanças climáticas, por meio de subsídios e crédito.
Há também um desafio cultural: o milheto precisa ser visto como um ingrediente nutritivo e versátil, e não apenas como um alimento associado à pobreza. Campanhas de comunicação, educação nutricional e a valorização de receitas tradicionais são importantes para ampliar sua aceitação. A cooperação entre os países do Sul Global, com o compartilhamento de variedades, técnicas e políticas públicas, pode otimizar a expansão do milheto. Para o ORF, o cereal, aliado à ciência, infraestrutura e políticas públicas, pode ser um pilar importante para sistemas alimentares mais resilientes e diversificados.






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