A GloboNews fez uma retratação pública após a jornalista Maria Cristina Fernandes afirmar, durante a programação, que setores da Igreja Católica estariam preocupados com um suposto projeto de Flávio Bolsonaro para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A informação se mostrou equivocada, mas o projeto de lei mencionado realmente existe, tendo sido apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victório Galli (Progressistas), arquivado em 2008 pela Câmara dos Deputados e sem qualquer conexão com Flávio Bolsonaro.

Disputa política e símbolos religiosos

A controvérsia ressurge em um cenário político onde Nossa Senhora Aparecida readquiriu relevância no debate sobre religião, identidade nacional e soberania. O Projeto de Lei 2.623/2007 visava modificar a legislação que estabelece 12 de outubro como feriado nacional em honra à santa. A proposta original pretendia substituir a designação de “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, sob o argumento de que o Estado brasileiro é laico e não deveria ter uma padroeira oficial. A proposição foi rejeitada e arquivada em agosto de 2008. Victório Galli, autor do projeto, posteriormente atuou como assessor especial da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro.

O ressurgimento do projeto se insere no contexto da relação entre o bolsonarismo e símbolos religiosos, marcada por embates públicos. Em outubro de 2022, durante a campanha pela reeleição, Jair Bolsonaro visitou o Santuário Nacional de Aparecida. A presença do então presidente e de seus apoiadores gerou manifestações políticas no local, incluindo gritos de “mito” e hostilidades contra jornalistas, evidenciando como espaços de devoção podem ser incorporados em campanhas eleitorais.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou orientações para as eleições de 2026, enfatizando a importância do discernimento dos eleitores e temas como democracia, soberania, dignidade humana e bem comum. Embora a entidade não tenha declarado apoio explícito a nenhum candidato ou partido, setores bolsonaristas interpretaram as orientações como uma aproximação com o presidente Lula, enquanto a esquerda também passou a analisar as manifestações de integrantes da Igreja sob a ótica da disputa eleitoral.

Soberania e a santa como símbolo

Nesse ambiente, Dom Orlando Brandes, arcebispo emérito de Aparecida, abordou a soberania em uma homilia no Santuário Nacional. Ele associou a escolha dos candidatos à consciência e ao bem comum, afirmando que “nenhum poder de fora” deveria interferir no Brasil. Essa fala ganhou repercussão nas redes sociais, colocando Nossa Senhora Aparecida em conexão com a palavra “soberania”, cada vez mais presente no debate político brasileiro.

A imagem da santa, nas redes, tem sido utilizada como representação de uma identidade brasileira que, segundo seus defensores, deve ser protegida de interesses externos. Esta disputa de significados também se assemelha aos acontecimentos nas plataformas digitais, onde empresas privadas exercem grande influência sobre o conteúdo que circula no espaço público, e grupos políticos e religiosos disputam o sentido das mensagens que chegam ao público.

A questão adquire uma dimensão particular com Nossa Senhora, cuja presença na cultura brasileira transcende o âmbito estritamente religioso. Reconhecida como Padroeira do Brasil desde 1980, a devoção à santa abrange milhões de católicos e sua imagem está integrada à memória de diversas regiões do país. Contudo, esse reconhecimento oficial coexiste com a Constituição de um Estado laico, que garante a liberdade religiosa e impede o estabelecimento de uma religião oficial.

O episódio da GloboNews, mesmo com a correção da informação equivocada, ressalta a força que os símbolos religiosos adquiriram na disputa política. Um projeto arquivado há 18 anos retornou à tona, evidenciando como a religião ocupa um espaço crucial na campanha eleitoral, a soberania se tornou um tema recorrente e plataformas privadas influenciam a circulação de conteúdos. Nossa Senhora, enquanto devoção religiosa, memória cultural e símbolo nacional, viu uma antiga proposta legislativa transformar-se em parte de uma disputa política contemporânea.