A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no último debate da TV Globo antes do primeiro turno das eleições não deve impactar significativamente seu desempenho nas urnas. Esta é a avaliação do cientista político Marcos Coimbra, presidente do Instituto Vox Populi, em entrevista à TV 247.

Coimbra argumenta que o segmento do eleitorado capaz de alterar o quadro da disputa eleitoral tem pouco interesse em política, decide o voto nos últimos dias da campanha e baseia sua escolha em questões concretas do cotidiano, e não no desempenho dos candidatos em confrontos televisivos. Segundo ele, o debate da Globo teria maior repercussão entre eleitores já engajados e com suas escolhas consolidadas. “A importância do debate da TV Globo para essas pessoas que decidem a eleição? Zero”, afirmou.

Eleitorado e suas escolhas

O cientista político divide o eleitorado em três grupos, segundo o grau de informação e envolvimento com a política. Ele estima que 40% dos brasileiros possuem baixo ou nenhum nível de politização, 30% apresentam um grau médio e 30% um nível elevado de acompanhamento da vida política. O primeiro grupo, com baixo interesse, seria crucial para a definição tardia dos votos.

Para Coimbra, um debate político longo e dedicado inteiramente à política mobiliza principalmente quem já acompanha a campanha. Eleitores com baixo interesse seriam mais influenciados por informações sobre renda, emprego, programas sociais e preços, que têm relação direta com suas vidas. Essa percepção o leva a relativizar o impacto da ausência de Lula no debate, embora a decisão tenha gerado repercussão política e sido explorada por adversários.

Lições de 2022 e a vantagem da Presidência

Coimbra usa como exemplo as eleições presidenciais de 2022, quando as pesquisas indicavam uma distância maior entre Lula e Jair Bolsonaro do que a registrada nas urnas. A aproximação no resultado final é interpretada por ele como decorrência da definição tardia de eleitores com baixo envolvimento político, influenciados por medidas do governo federal com impacto direto na renda e no consumo.

O cientista político observa que parte do eleitorado só começa a prestar atenção na disputa presidencial próximo à votação. A condição de Lula como presidente em exercício pode ser uma vantagem nesse cenário, pois o eleitor menos interessado em política tende a observar o que identifica concretamente com o governo, mesmo sem conhecer detalhes de suas políticas. Ele citou uma pesquisa do Vox Populi em que 80% dos entrevistados não se consideravam bem informados sobre as ações do governo.

Apesar de não prever resultados, Coimbra ressalta que a experiência de 2022 mostra como segmentos menos envolvidos com a política podem alterar o cenário eleitoral nos momentos finais. Ele também aponta a vantagem dos governadores que buscaram a reeleição em 2022, onde 20 dos 22 obtiveram sucesso, sugerindo que a ocupação do cargo pode ser um critério simplificador para parte do eleitorado.

Contudo, Coimbra alerta contra uma desmobilização na reta final, mesmo com uma eventual vantagem estrutural. A mobilização continua sendo importante para garantir o comparecimento às urnas, especialmente em parcelas de menor renda. Além disso, uma vitória com maior margem de votos pode influenciar o ambiente político no início do próximo mandato, impactando a relação do Executivo com um Congresso fragmentado.

Em síntese, Coimbra avalia que a ausência de Lula no debate não será determinante, pois o público mais politizado já tem seu voto definido. No entanto, ele rejeita a ideia de que a eleição já esteja definida e enfatiza a importância da mobilização até o dia da votação.