Uma coalizão composta por mais de 100 economistas e 50 organizações da sociedade civil lançou a iniciativa “Vida em Conta”, que apresenta cinco prioridades econômicas destinadas ao próximo governo brasileiro. A proposta principal é reduzir as desigualdades sociais e melhorar as condições de vida da população. O documento, de 16 páginas, não manifesta apoio a nenhum candidato específico, mas faz uma análise dos avanços desde 2023, sob o governo Lula, e adverte sobre possíveis retrocessos caso uma agenda econômica associada ao bolsonarismo seja retomada. A iniciativa é articulada pelas plataformas Cipó e Transforma, este último um laboratório de economia da Unicamp.

Diagnóstico e Prioridades

Entre os signatários do projeto estão nomes como Pedro Rossi, Laura Carvalho, Luiz Gonzaga Belluzzo e Carmem Feijó. No documento, os economistas afirmam que o Brasil tem reconstruído políticas públicas, capacidades estatais e instrumentos de planejamento. Essas ações, segundo eles, resultaram em avanços significativos no combate à fome e à pobreza, na redução da inflação, na geração de empregos e renda, no crescimento econômico, na proteção ambiental, na retomada do investimento público e na projeção internacional do país.

Apesar de reconhecerem esses progressos, o grupo ressalta que o país ainda enfrenta problemas estruturais profundos. O documento aponta que a maioria dos brasileiros ainda sente que, ao final do dia ou do mês, não dispõe de tempo nem salário suficientes para um padrão de vida digno. As cinco prioridades econômicas propostas são: redução das desigualdades; diminuição do custo de vida e ampliação do tempo e das condições para uma vida digna; fortalecimento da soberania tecnológica e inovação a serviço do desenvolvimento sustentável; aceleração da diversificação produtiva para gerar empregos de qualidade; e reorientação da tributação e do orçamento público para o bem-estar e o desenvolvimento sustentável.

Críticas a Modelos Anteriores

A coalizão também critica uma abordagem econômica baseada na contenção permanente de gastos, na redução do papel do Estado e em desonerações fiscais sem contrapartidas. Segundo o grupo, há um “risco concreto de retorno a uma agenda que, em nome de um Estado mais enxuto e de menos impostos, combina restrições ao gasto público, limitações permanentes à capacidade de ampliar a arrecadação e desonerações tributárias sem contrapartidas claras para o desenvolvimento”.

Como exemplo negativo, o documento cita o período entre 2016 e 2022, que abrange o final do governo Dilma Rousseff, a gestão de Michel Temer e o governo de Jair Bolsonaro. De acordo com o texto, “escolhas desse tipo podem limitar o crescimento econômico e o investimento, enfraquecer as capacidades públicas, comprometer a oferta de serviços essenciais e a proteção ambiental e ampliar desigualdades”. Maiara Folly, diretora-executiva da Cipó, enfatiza que o sucesso de uma política econômica deve ser medido pela capacidade de melhorar concretamente a vida da população, reduzindo desigualdades e transformando as riquezas do país em avanços tecnológicos e melhores condições de vida.

A proposta foi desenvolvida a partir de pesquisas e diálogos com movimentos sociais. Futuramente, a iniciativa pretende apresentar sugestões para os primeiros 100 dias do próximo governo e criar um Banco de Iniciativas para reunir e dar visibilidade a ideias de políticas públicas.