247 – Oito em cada dez brasileiros são contrários à discussão política dentro de espaços religiosos, e nove em cada dez rejeitam a presença de candidatos nas igrejas. Os dados são da pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Quaest, com 15 mil entrevistas presenciais. O levantamento foi divulgado pelo O Globo na série “Fiel da balança”.

Apesar da rejeição, 11% dos entrevistados disseram ter recebido orientação de líderes religiosos para votar em Jair Bolsonaro (PL) na eleição de 2022. Outros 5% afirmaram ter sido orientados a votar em Lula (PT).

Entre os evangélicos, a influência foi maior. O índice chegou a 20% entre protestantes, como batistas e presbiterianos, e a 23% entre pentecostais, grupo que inclui Assembleias de Deus, Universal e Quadrangular.

Na Igreja Universal, 27% dos fiéis disseram ter recebido recomendação para votar em Bolsonaro e 12% em Lula. Além disso, 26% concordam que o pastor indique em quem votar.

Para a antropóloga Lívia Reis, coordenadora da pesquisa, os dados não apontam para um comportamento eleitoral homogêneo entre evangélicos.

“Não se trata de o pastor mandar e o fiel obedecer. Na pesquisa, os evangélicos aparecem mais engajados religiosamente do que outros grupos, e a igreja é uma rede de confiança”, disse.

Influência também ocorre nas redes

A pesquisa mostra que a política circula também nos grupos religiosos das redes sociais. Entre os participantes desses espaços, 48% dizem ver “sempre” ou “frequentemente” conteúdos políticos no Facebook, enquanto 34% relatam o mesmo no WhatsApp.

O antropólogo Flávio Conrado afirma que lideranças mais radicalizadas podem ter reduzido a atuação política explícita nos púlpitos, mas continuam utilizando as redes para “circunscrever o voto religioso à direita”.

Ele cita ainda a forma como algumas lideranças apresentam o ministro André Mendonça como personagem de uma disputa política e religiosa.

“A ideia transmitida é que Mendonça está numa batalha espiritual contra um ‘sistema corrompido’, que certas lideranças associam à ocupação do Executivo e do STF pela esquerda”, afirma.