A eleição já marcada por disputas judiciais intensas recebeu um ingrediente que promete pesar nos próximos meses: uma decisão polêmica do Supremo Tribunal Federal durante o processo de votação. No domingo da eleição, o ministro Cristiano Zanin, que foi advogado pessoal de Lula, determinou a prorrogação da votação em todo o país. A decisão deixou o Tribunal Superior Eleitoral sem agir até às 17h, momento em que iniciou a apuração, mas precisou parar a contagem minutos depois por causa da ordem do ministro. Zanin posteriormente recuou, limitando sua determinação apenas às seções ainda abertas, com aval do TSE. O intervalo deixou a contagem parada por quase 2 horas.

As duas campanhas haviam pedido prorrogação. A campanha de Lula citou problemas com ônibus na Bahia e em outros 9 estados. A de Flávio Bolsonaro mencionou chuvas em cidades de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, incluindo Curitiba e Guaratuba. Apesar dos pedidos similares, em 2022 o TSE havia rejeitado prorrogações ante circunstâncias comparáveis.

Efeitos na credibilidade institucional

A decisão é descrita como polêmica e atípica. O resultado prático foi transferir do campo político para a esfera do Judiciário a definição do resultado, abrindo margem maior para questionamentos e desgaste da confiança do eleitor no processo. O Brasil já vivenciou uma eleição cujos questionamentos não terminaram em 2014, um processo alongado em 2022, e agora enfrenta cenário semelhante. O custo é alto para a estrutura institucional do país.

Nessa eleição, o Judiciário demonstrou sua amplitude de poderes, mas recebeu uma resposta severa nas urnas: o Senado elegeu maioria de oposição, com 49 senadores do campo da direita. Esse Senado tem capacidade de decidir sobre futuras vagas que se abrem no Supremo nos próximos anos, incluindo as de Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes, alterando o equilíbrio da corte.

Impactos para o Paraná

Para o Paraná, a tensão é maior. O estado apoiou Flávio Bolsonaro com 59,9% dos votos no primeiro turno, contra 31,2% de Lula. O governador eleito, Sergio Moro, do PL, tem disputa pessoal com o presidente reeleito desde a Lava Jato e solicitou votos para Flávio na reta final, citando a necessidade de um aliado no Planalto. A relação tende a ser mais beligerante, afetando pautas dependentes de Brasília como a Nova Ferroeste, Porto de Paranaguá, pedágios e a ponte do Norte Pioneiro.

O Brasil sai enfraquecido do processo eleitoral. Uma reeleição nascida de virada histórica, numa noite marcada pela interrupção de quase 2 horas na apuração por decisão de um ministro que foi advogado do próprio reeleito, carrega déficit de confiança que números não resolvem. A reconstrução dessa credibilidade cabe ao governo vencedor e ao Judiciário que decidiu, bem mais que ao eleitor desconfiado.