O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou nesta sexta-feira (2) que seus opositores políticos passaram a apoiar os “bilionários donos de operadoras” de cartões de crédito. A afirmação veio após Lula levantar a necessidade de alterações para combater os juros elevados e o endividamento das famílias, especialmente em relação ao uso de cartões. A controvérsia surgiu depois de declarações de Lula na quinta-feira (1º) sobre a possibilidade de restringir a concessão de cartões.

Nesta sexta, o presidente esclareceu que não pretende limitar o número de cartões que um brasileiro pode ter. Ele enfatizou que o foco da discussão são os cartões enviados sem solicitação e os juros cobrados dos consumidores. “Ontem falei da preocupação com o cartão de crédito, pois os juros são indecentes. Hoje meus adversários acordam para defender os bilionários donos de operadoras desses cartões. Claro que sei da importância do crédito para a vida das famílias. Cada cidadão tem o direito de ter quantos cartões de crédito quiser”, escreveu Lula. Ele acrescentou: “O que não aceito é que bancos enviem para a casa das pessoas sem que elas tenham solicitado. Vamos acabar com essa prática e com os juros abusivos no Brasil”.

Reação à declaração inicial e o foco no rotativo

A declaração inicial de Lula, feita durante entrevista ao Flow Podcast, onde mencionou discutir com o Banco Central uma forma de impedir bancos de conceder mais de um cartão por pessoa, gerou críticas. O deputado federal Nikolas Ferreira, por exemplo, utilizou as redes sociais para criticar o presidente, associando suas falas aos gastos públicos e sugerindo que a restrição deveria atingir a primeira-dama, Janja da Silva. No entanto, o presidente descartou qualquer limite na quantidade de cartões, reforçando que o problema são os juros e as práticas abusivas.

A preocupação do presidente concentra-se no alto custo do crédito e no impacto do endividamento sobre as famílias. O crédito rotativo, utilizado quando o consumidor não quita a fatura integralmente, permanece como uma das modalidades mais caras do sistema financeiro brasileiro. Dados do Banco Central indicaram que a taxa média do rotativo alcançou 449,4% ao ano em agosto. Lula citou um caso de uma família que, segundo ele, acumulou uma dívida de R$ 80 mil devido ao recebimento de múltiplos cartões não solicitados, criticando a facilidade com que instituições financeiras oferecem crédito e a irresponsabilidade no endividamento da sociedade.

Crescimento do crédito rotativo e novas regras

O debate ocorre em um cenário de crescimento expressivo do crédito rotativo. Concessões nesta modalidade totalizaram R$ 311 bilhões nos primeiros oito meses de 2026, o maior volume já registrado para o período, superando os R$ 266 bilhões do mesmo intervalo em 2025. O montante anual de 2025 foi de R$ 403 bilhões, indicando que o volume acumulado até agosto de 2026 já se aproximava desse total. O Brasil possuía cerca de 101 milhões de usuários de cartão de crédito no início de 2026, com aproximadamente 40 milhões utilizando o crédito rotativo em janeiro. A inadimplência nessa modalidade chegou a 63,5%, o que reforça a urgência da discussão.

Desde janeiro de 2024, uma regra aprovada pelo Congresso limita o crescimento das dívidas do rotativo, estabelecendo que o total de juros e encargos financeiros não pode ultrapassar 100% do valor original da dívida. Isso significa que uma dívida inicial de R$ 100 pode gerar, no máximo, outros R$ 100 em juros e encargos. O governo também tem buscado ampliar alternativas de crédito mais acessíveis, como o crédito consignado para trabalhadores do setor privado. Ao esclarecer sua proposta, Lula reafirmou seu foco em impedir o envio de cartões sem solicitação e combater os juros elevados, rejeitando a ideia de limitar a quantidade de cartões por consumidor.