247 – Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro apontam que a advogada Camilla Ramos, esposa do desembargador Newton Ramos (do TRF-1), custeou uma viagem ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques para Maceió, além de ter contratado o cantor Wesley Safadão para o aniversário de 15 anos de sua filha. A banca de advocacia de Camilla firmou contrato com o Banco Master para a liberação de pagamentos de precatórios com honorários que poderiam atingir R$ 427 milhões, segundo Malu Gaspar, do jornal O Globo.

De acordo com as apurações, o contrato com o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia previa o pagamento de 5% de honorários líquidos de êxito sobre os valores recuperados em 12 processos, estimados em um total de R$ 8,5 bilhões. Nas conversas obtidas pela investigação, mantidas entre o final de 2024 e maio de 2025, assessores do banqueiro referiam-se à advogada e ao desembargador como integrantes da “turma do KN”, em alusão direta às iniciais do ministro do STF.

Entre os episódios citados, em fevereiro de 2025, a advogada realizou uma festa de 15 anos para a filha em Brasília, evento promovido nas redes sociais que contou com o show surpresa do cantor Wesley Safadão. Em outra troca de mensagens, datada de junho de 2025, Camilla comemorou com Vorcaro uma vitória obtida no Supremo em julgamento de precatórios de interesse do Banco Master, fazendo elogios explícitos ao “excelente voto de Nunes Marques”.

O próprio ministro Kassio Nunes Marques confirmou ter viajado em novembro de 2025 em uma aeronave custeada por Camilla rumo a Maceió para participar da comemoração de aniversário da advogada. O integrante da Suprema Corte declarou que a proximidade com o casal é de “caráter pessoal” e negou qualquer tipo de contrapartida ou interferência em sua atuação magistrada no tribunal.

Reportagens anteriores baseadas nos dados do celular de Vorcaro já haviam revelado que o empresário bancou o aluguel de uma mansão no Rio de Janeiro para que o ministro passasse o Carnaval de 2025. A própria advogada confirmou a estadia na residência ao lado do marido. Intermediando contatos, o desembargador Newton Ramos também tratava de reservas em hotéis de alto padrão para Kassio, como no caso em que solicitou tarifas promocionais no Hotel Fasano, ocasião em que Vorcaro autorizou: “Pode botar na minha conta”.

Procurado, o desembargador Newton Ramos afirmou em nota que mantém relação pessoal com o banqueiro antes dos fatos sob investigação e ressaltou que jamais julgou processos do interesse do Banco Master. O escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia declarou que presta serviços jurídicos mediante contrato formal para atuar em precatórios da instituição e enfatizou não ter causas em tramitação no STF, tampouco vínculo formal com Nunes Marques, atuando estritamente dentro da legalidade.

Disputa pela Usina Alcídia na Segunda Turma

A atuação do empresário Daniel Vorcaro também buscava influenciar julgamentos na Segunda Turma do STF relacionados a dívidas do setor sucroalcooleiro. Em um dos processos de maior relevância, relativo ao precatório da usina Alcídia, o banqueiro tentou aproximação com o ministro Gilmar Mendes, que acabou votando contra os interesses da instituição financeira.

O trâmite do caso da usina Alcídia registrou idas e vindas ao longo de 2024. Em março daquele ano, Gilmar Mendes fez pedidos de destaque que interromperam as deliberações, cancelando a solicitação em agosto. Quando o processo retornou ao plenário virtual em setembro, Kassio Nunes Marques pediu vista. Ao devolver o caso, Nunes Marques divergiu do relator, alinhando-se à tese favorável a Vorcaro e ajudando a consolidar a maioria. O julgamento foi concluído em outubro de 2024 com a vitória da usina contra a União por 3 votos a 2, tendo os votos favoráveis à tese de Vorcaro dados por Edson Fachin, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques, enquanto Gilmar Mendes e André Mendonça votaram a favor da União.

Pedido de suspeição e repasses a familiares

Diante da repercussão e da juntada de relatórios da Polícia Federal que apontaram diálogos sobre o caso, Nunes Marques declarou-se impedido de analisar ações relativas à validade do relatório da PF envolvendo o Banco Master, alegando desconforto por sua condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

As investigações da Polícia Federal detalham ainda que Vorcaro teria discutido pagamentos mensais de R$ 500 mil a Kevin de Carvalho Marques, advogado de 25 anos e filho do ministro do STF. Documentos apontam que o Banco Master repassou R$ 6,6 milhões à empresa Consult, a qual efetuou pagamentos entre agosto de 2024 e julho de 2025 ao filho do magistrado.