Nesta quarta-feira (30), o governo do Irã informou que recebeu uma resposta dos Estados Unidos em relação à sua proposta para restabelecer o cessar-fogo no Golfo. A notícia surge poucos dias depois de o presidente americano, Donald Trump, ter anunciado que rejeitara a oferta iraniana. A confirmação foi divulgada no mesmo dia em que autoridades dos EUA e do Iraque comunicaram a retirada das últimas tropas americanas de bases iraquianas, movimento celebrado por aliados de Teerã como uma vitória.
A proposta iraniana contempla a suspensão do bloqueio dos portos do país por Washington, em troca da reabertura do Estreito de Ormuz por Teerã em um prazo de até sete dias. Há relatos de que as partes avançaram nas discussões sobre as medidas necessárias para retomar a trégua, mas ainda divergem quanto à ordem de sua implementação. Um porta-voz do governo iraniano, através de uma publicação no X, anunciou que o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, transmitiu a resposta americana às autoridades em Teerã. No entanto, o anúncio não detalhou o conteúdo da comunicação nem esclareceu se Washington impôs condições para dar prosseguimento às negociações.
Negociações e o acordo de junho
Trump havia afirmado no domingo (27) que recusou a proposta iraniana. Posteriormente, Araqchi declarou que o Irã não recebera uma rejeição formal. Uma fonte não iraniana, com conhecimento das negociações e que preferiu manter o anonimato, revelou que mediadores do Catar entregaram a resposta americana ao chanceler na terça-feira (29), enquanto Araqchi fazia escala em Doha, retornando de Nova York.
Representantes de Estados Unidos e Irã haviam participado de conversações na semana passada, mediadas pelo Catar, à margem da reunião das Nações Unidas em Nova York. Esses foram os primeiros encontros presenciais entre os dois lados desde o rompimento do cessar-fogo. Teerã sustenta que sua proposta visa resgatar o acordo provisório assinado em junho por Trump e pelo presidente iraniano, Masoud Pezeshkian. A trégua colapsou semanas depois, e a guerra, conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã, agora atinge o oitavo mês.
Retirada do Iraque e a situação regional
Além de restabelecer o cessar-fogo, o governo iraniano busca obter, em um possível acordo, o controle sobre o Estreito de Ormuz. Essa passagem, localizada próxima à costa iraniana, é a principal rota marítima mundial para o transporte de petróleo e, antes do conflito, concentrava cerca de um quinto do fluxo global do produto. A circulação de embarcações no estreito aumentou recentemente, mas as transportadoras cobram valores elevados devido ao risco de ataques, o que continua a comprometer o transporte de petróleo bruto, derivados e gás natural. Na quarta-feira, o órgão britânico de segurança marítima UKMTO reportou que projéteis atingiram dois navios no dia anterior.
A saída das últimas tropas americanas de bases iraquianas concretiza um plano acordado entre Washington e Bagdá em 2024, durante o governo do então presidente Joe Biden. A administração Trump executou a retirada, mesmo mantendo a guerra contra o Irã, vizinho do Iraque. A presença militar americana teve início com a invasão de 2003, que derrubou Saddam Hussein. Ao longo de 23 anos, aproximadamente 4.500 militares dos Estados Unidos morreram no país, e mais de 200 mil civis iraquianos perderam a vida no caos pós-regime.
O Irã interpreta a retirada como um avanço em seu objetivo de expulsar as forças americanas da região e como uma vitória para o “eixo de resistência”, que engloba grupos armados aliados de Teerã. Abu Mojtaba al-Yasiri, comandante da Resistência Islâmica no Iraque, uma organização que reúne facções apoiadas pelo Irã, classificou a saída como uma “vitória histórica para os grupos de resistência islâmica iraquianos e os iraquianos honrados, e uma derrota esmagadora para o projeto americano”. O Iraque, majoritariamente xiita como o Irã, tornou-se uma área de influência política e militar de Teerã e tem sido palco de confrontos indiretos entre americanos e iranianos. Dos 18 militares dos Estados Unidos mortos desde o início da operação “Fúria Épica” de Trump em fevereiro, sete faleceram no Iraque.
Washington responsabiliza grupos iraquianos apoiados pelo Irã por ataques a países vizinhos, incluindo uma ação que interrompeu o funcionamento de um importante oleoduto saudita três semanas antes da retirada. O analista político Ahmed Younis, baseado em Bagdá, avaliou que a saída americana aumenta “a possibilidade de que os grupos aliados do Irã se sintam cada vez mais fortalecidos na ausência de uma presença militar ocidental”. Ele acrescentou que “esses grupos podem tentar ampliar seu papel na definição das políticas do Estado e consolidar sua presença em instituições importantes”.
Pressão política e apelo aos eleitores americanos
O conflito também gera pressão na política interna dos Estados Unidos. Pesquisas indicam que a guerra enfrenta rejeição entre os americanos desde o início. A interrupção do abastecimento global de energia e a alta dos combustíveis têm prejudicado os republicanos de Trump, que buscam manter o controle das duas casas do Congresso nas eleições legislativas programadas para daqui a cinco semanas.
Na terça-feira, a Guarda Revolucionária do Irã divulgou uma carta de 26 páginas direcionada aos eleitores americanos, solicitando a derrota eleitoral dos aliados do presidente. A organização escreveu: “Retirem do poder os políticos malignos, desonestos e violentos que são responsáveis pela situação atual dos Estados Unidos” e “Certifiquem-se de que seus políticos entendam que o mundo mudou”. No Irã, o conflito agravou a crise econômica, mas Teerã conseguiu preservar sua capacidade de atacar países vizinhos e ameaçar embarcações em Ormuz. Trump mantém a posição de que a guerra terminará em breve e que os iranianos acabarão cedendo.






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