O governo brasileiro avalia que os Estados Unidos já estão interferindo nas eleições nacionais e que essa intervenção pode aumentar progressivamente até o segundo turno. O Palácio do Planalto identificou pelo menos quatro frentes de atuação norte-americana: pressão política, impulsionamento digital, financiamento e reuniões estratégicas. Essa preocupação é reforçada por um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), entregue no final de agosto ao Planalto, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O relatório da Abin classificou a possibilidade de influência direta dos EUA como de “nível de criticidade”, indicando uma “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil” e uma “intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos EUA”.

Frentes de Interferência Identificadas

A primeira frente de atuação é a pressão política direta, exemplificada por declarações do presidente Donald Trump e do secretário de Estado Marco Rubio em outros países latino-americanos, como Colômbia e Honduras. O Planalto interpreta que os EUA buscam replicar essa estratégia no Brasil. Em casos anteriores, Trump se manifestou publicamente em favor de candidatos da direita e contra oponentes de esquerda, classificando-os como “marxistas radicais” ou “narcocomunistas”.

A segunda frente levantada é a suspeita de impulsionamento pago de perfis pró-Flávio Bolsonaro a partir do território norte-americano. Essa hipótese é defendida por campanhas políticas adversárias, que comparam a situação a uma manipulação similar vista na eleição colombiana. A campanha de Flávio Bolsonaro nega veementemente qualquer impulsionamento vindo do exterior.

A terceira frente concerne ao financiamento eleitoral por meio do fundo de investimentos Rockbridge Network. A denúncia, levada ao Supremo Tribunal Federal (STF), sugere que o fundo, cofundado pelo vice-presidente norte-americano J.D. Vance, estaria financiando a candidatura de Flávio Bolsonaro. A legislação eleitoral brasileira proíbe doações ou repasses de recursos estrangeiros a partidos e candidatos, e a campanha de Flávio Bolsonaro nega qualquer irregularidade.

A quarta frente mapeada refere-se a encontros de autoridades norte-americanas com influenciadores digitais brasileiros da direita. Embora o tema oficial das conversas tenha sido liberdade de expressão e ambiente digital, o governo brasileiro entende que o objetivo era apresentar a visão dos EUA sobre o cenário eleitoral.

Motivações Geopolíticas

As motivações geopolíticas para a intervenção dos EUA estão detalhadas no relatório da Abin, que analisou documentos do governo Trump. A agência de inteligência concluiu que os objetivos estratégicos de Washington são reduzir a influência de potências rivais na América Latina e garantir o controle, direto ou indireto, dos EUA sobre ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas na região.

No diagnóstico do governo brasileiro, a disputa global entre Estados Unidos e China posiciona o Brasil como peça-chave para conter a presença chinesa no continente, dada a proximidade diplomática e econômica entre Brasília e Pequim. Além disso, a doutrina de segurança norte-americana para a região, que inclui o combate ao narcotráfico, depende do apoio e da participação do Brasil, especialmente em relação a nações vizinhas governadas pela direita.