A vitória de Bernardo Arévalo e seu Movimento Semente nas eleições de junho de 2023, na Guatemala, gerou grande expectativa por uma sociedade mais igualitária. A população, tanto urbana quanto rural, mobilizou-se para defender o resultado eleitoral contra tentativas do que foi chamado de “pacto dos corruptos”, uma aliança informal de setores político, econômico, judicial e militar que busca controlar o país e desviar recursos públicos. Por cerca de 100 dias, comunidades indígenas e organizações camponesas protestaram nas ruas contra as tentativas de anular as eleições e ilegalizar o partido de Arévalo. O programa do então candidato focava em justiça social, desenvolvimento inclusivo, combate à corrupção e resgate das instituições democráticas, temas que ressoaram com o eleitorado e o levaram à vitória no segundo turno em agosto de 2023, mesmo com uma baixa participação de 45% dos eleitores.

Desafios socioeconômicos e dependência externa

A Guatemala é uma nação com histórico de conflitos armados, divisões raciais e um modelo econômico neoliberal extrativista e agroexportador, que, embora proporcione estabilidade macroeconômica, acentua a desigualdade. Quase 60% da população vive abaixo da linha da pobreza, número que sobe para 75% entre indígenas, com picos de 90% em regiões como Alta Verapaz, conforme dados de 2023 e 2024. A situação é agravada por uma taxa de informalidade no trabalho superior a 70%, desnutrição crônica em 44% das crianças menores de cinco anos e forte dependência de remessas financeiras do exterior, que atingiram quase 18 bilhões de dólares em 2026, sustentando o consumo interno. A relação com os Estados Unidos é crucial, com 73% das exportações guatemaltecas para o país desfrutando de "tarifas zero", o que liga a competitividade agrícola e industrial às políticas de Washington. Essa dependência pode se aprofundar com o aumento das deportações para a Guatemala, que cresceram 47,5% nos primeiros oito meses deste ano, totalizando mais de 46 mil pessoas repatriadas, em meio a restrições imigratórias dos EUA.

Apesar das promessas de mudança, o governo de Arévalo tem sido criticado por sua suposta incapacidade de cumprir as expectativas. Com uma carga tributária de apenas 11-12% do PIB, uma das menores do mundo, o Estado guatemalteco tem dificuldades em financiar políticas sociais e investimentos em infraestrutura. A questão da memória e direitos humanos é um ponto sensível, dada a história de mais de 200 mil vítimas do conflito armado interno, com 85% delas sendo de etnia maia, e as 626 massacres documentados pela ONU. Arévalo, que enfrentou sabotagem institucional e um judiciário hostil, não teria demonstrado capacidade ou vontade de concretizar as mudanças prometidas.

Crescente desaprovação e temores de instabilidade

A menos de um ano das próximas eleições gerais (junho de 2027), o cenário político da Guatemala se mostra complexo, com rumores de um possível golpe de Estado. Francisco Mendoza, coordenador do Conselho Político dos Sindicatos Globais da Guatemala, afirmou que, embora Arévalo tenha enfrentado obstáculos, a diferença entre a proclamação de ideais e a liderança política real tornou-se evidente. A falta de coordenação com os movimentos de apoio e a pouca participação dos setores vulneráveis teriam tido "efeitos devastadores para o governo". Essa situação tem levado à agitação popular e à incapacidade do executivo em desmantelar grupos de poder ligados ao crime organizado, que continuam a controlar o Estado e a economia.

A conjuntura internacional, com o aumento do custo dos combustíveis e produtos básicos, e os impactos das mudanças climáticas, como a seca severa, têm agravado a crise, e o governo parece não ter as ferramentas para mitigar os efeitos. Protestos recentes foram reprimidos com prisões, e a tese do chefe de Estado de ligação dos manifestantes com o crime organizado não se sustenta. A desaprovação do governo Arévalo ultrapassa 52%, segundo pesquisas recentes, enquanto a segurança piora com o aumento de mortes violentas, feminicídios, extorsões e fugas de prisões. O pesquisador e ativista social Jubenal Quispe (Ollantay Itzamná) argumenta que o cenário era previsível, com Arévalo respondendo a interesses de democratas estadunidenses e da OEA, e que a suposta alternativa progressista serviria para manter o status quo, temendo que as próximas eleições consolidem um governo ainda mais alinhado com grupos de poder e políticas filo-sionistas.