A Rockbridge Network, grupo conservador cofundado por JD Vance, que assumirá a vice-presidência dos Estados Unidos em janeiro de 2025, e pelo empresário Chris Buskirk, planejou estabelecer uma operação no Brasil. Documentos obtidos pela imprensa indicam que a iniciativa abrangeria atuação em mídia, formação de jovens e engajamento legislativo. Representantes da rede teriam mantido contato com figuras proeminentes do cenário empresarial e político brasileiro.

Empresários como Joesley Batista, da J&F, e André Esteves, do BTG, teriam se encontrado com membros da Rockbridge. No âmbito político, Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo), ambos citados como pré-candidatos à Presidência, também teriam tido contato com a organização. Contudo, os citados não se manifestaram sobre o assunto. A Rockbridge, por sua vez, sustenta que o projeto brasileiro não foi adiante.

Estrutura e Financiamento Proposto

A Rockbridge afirmou ter chegado a criar uma entidade jurídica no Brasil devido ao interesse manifestado por brasileiros, mas assegura que o projeto foi rejeitado, não recebeu financiamento e nunca entrou em operação. Os documentos revelam modalidades de ingresso na estrutura, como a categoria Keystone, que previa uma contribuição anual de US$ 500 mil, e a Visionary, com US$ 1 milhão. Os valores poderiam ser transferidos em dólar, criptomoedas, ações ou por meio de estruturas corporativas e trusts, tendo como destinatária a Rockbridge Brazil LLC, empresa estabelecida nos Estados Unidos.

A categoria de maior valor incluía participação em um conselho estratégico, acesso a reuniões fechadas e encontros com doadores e políticos internacionais. Outro documento descrevia a operação brasileira como uma estrutura para financiar iniciativas ligadas à infraestrutura política e social do país, dividindo a atuação em três eixos: apoio a veículos conservadores na área de mídia, financiamento a movimentos acadêmicos na formação de jovens e fornecimento de dados a parlamentares de direita na frente legislativa. Um documento de abril, intitulado “Conselho de Tecnologia — O Atalho para a Prosperidade e Soberania Nacional”, endereçado a Flávio Bolsonaro, então pré-candidato à Presidência, tratava de um alinhamento de empresários brasileiros com os EUA na disputa tecnológica com a China, estimando um impacto econômico superior a US$ 100 bilhões em dez anos e mais de 500 mil empregos.

Controvérsia e Investigações

A Rockbridge rejeitou a interpretação de que planejava participar da política brasileira, reiterando que a iniciativa não avançou e que a empresa nunca recebeu recursos ou operou no país. A assessoria da organização afirmou que a participação política nunca foi cogitada, e a proposta discutida era de um fórum empresarial. Alega-se que alguns brasileiros produziram documentos e fizeram declarações sem o conhecimento ou autorização da Rockbridge. André Marinho, mencionado como responsável por uma apresentação independente, negou ter elaborado os documentos que detalhavam metas e condições de adesão.

A atuação do grupo ganhou destaque na disputa eleitoral após acusações do candidato à Presidência Renan Santos (Missão), que alegou que membros ligados à Rockbridge estariam apoiando a campanha de Flávio Bolsonaro e teriam interesses em terras raras brasileiras, o que é negado pelos envolvidos. Diante da controvérsia, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a apuração de possível entrada de recursos estrangeiros na campanha de Flávio Bolsonaro. O PT também protocolou um pedido no STF para investigar a hipótese de financiamento ilegal, destacando que os pedidos se referem a suspeitas a serem apuradas e não constituem comprovação de repasse de recursos.