O Conselho Superior do Ministério Público Federal (MPF) arquivou o procedimento administrativo que poderia iniciar uma investigação contra o procurador-geral da República, Paulo Gonet, na última sexta-feira (7). Embora a decisão lhe garanta uma sobrevida no cargo, a votação apertada de cinco votos a quatro evidenciou uma clara divisão interna na instituição em relação à sua atuação no caso envolvendo o Banco Master.

Aliados e críticos de Gonet concordam que ele conseguiu sobreviver ao episódio, mas não saiu fortalecido. O resultado mínimo do placar alimentou avaliações de que o desgaste provocado pelas controvérsias ainda persiste. A polêmica teve origem em mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, então proprietário do Banco Master, nas quais Gonet era mencionado. Anteriormente, o procurador-geral negou proximidade ou amizade com Vorcaro, afirmando estar “juridicamente plenamente apto” para lidar com os procedimentos relacionados à instituição financeira.

Desconfiança persiste e foto amplia o cenário

Uma ala de subprocuradores, mesmo após o arquivamento, considera que o placar de 5 a 4 não foi suficiente para dissipar a desconfiança interna sobre a relação entre Gonet e Vorcaro. Críticos da atual gestão avaliam que o ambiente na PGR sofreu um desgaste desde a divulgação das mensagens em que o procurador-geral era citado. Em uma das conversas, Vorcaro teria questionado se seria possível reverter investigações sobre o Master junto a Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Gonet, por sua vez, rejeitou qualquer interesse pessoal nos processos e afastou a hipótese de impedimento ou suspeição.

O desconforto no Ministério Público se intensificou após a circulação de uma fotografia em que Gonet aparece com Vorcaro e o advogado Ciro Soares em um evento em Londres. Soares teria atuado como interlocutor entre o procurador-geral e o ex-banqueiro. A PGR confirmou a autenticidade da imagem, destacando que o evento, em abril de 2024, contou com a presença de diversas autoridades. Em sua manifestação ao Conselho Superior, Gonet descreveu o encontro como o único presencial com Vorcaro, classificando-o como “brevíssimo e banal”.

Expectativas e visões divergentes

Parte dos integrantes da PGR acredita que o procurador-geral perdeu a confiança institucional em alguns setores da carreira. Essa percepção indica que a resistência, antes presente entre integrantes da primeira instância, agora atinge também uma parcela dos subprocuradores-gerais da República, que ocupam o mais alto nível da carreira no MPF.

Integrantes do Ministério Público que defendiam uma apuração mais aprofundada avaliam que a desconfiança permanecerá. Eles consideram necessário observar como Gonet responderá às críticas e sugerem que ele poderá reduzir sua exposição nos desdobramentos do caso Master, compartilhando mais atribuições com outros três integrantes da PGR que também atuam nos procedimentos relacionados ao banco, sem abandonar formalmente o caso.

Por outro lado, aliados de Gonet minimizam a desconfiança interna e descartam que a controvérsia possa comprometer a continuidade de sua gestão. Embora surpreendidos pelo placar apertado, que revelou que quatro membros do colegiado consideravam necessária uma investigação, os aliados acreditam que a decisão do Conselho encerra institucionalmente o procedimento. No entanto, reconhecem a consequência política e institucional: quase metade dos votos no Conselho Superior foi favorável à continuidade da apuração, mesmo com o arquivamento.