A indústria automotiva chinesa, que já concentra mais de 35% da produção global, está em um movimento de consolidação que pode transformar o mercado mundial. Em 2025, a China produziu 34,5 milhões de veículos, com suas marcas nacionais respondendo por 27 milhões de unidades vendidas globalmente, superando as japonesas pela primeira vez. Esse avanço é impulsionado pelo governo de Pequim, que incentiva a união de grandes estatais, como a First Automotive Works (FAW) e o Guangzhou Automobile Group (GAC).

A fusão entre FAW e GAC, avaliada em US$ 6,5 bilhões, criaria uma empresa com volume comercial superior a um milhão de unidades, número que supera a venda individual das três maiores marcas da Stellantis no ano anterior. Segundo Katrina Hamlin, da Reuters, a consolidação de fabricantes estatais chineses pode gerar uma superpotência global com US$ 1 trilhão em ativos combinados. Essa gigante dominaria a produção de veículos elétricos (EVs) e representaria uma forte concorrência para as montadoras ocidentais, mirando um salto nas exportações de três milhões para nove milhões de unidades até 2030.

Impacto no mercado global e nas montadoras ocidentais

Mark Wakefield, da consultoria AlixPartners, descreve a China como a força disruptiva da indústria automotiva. Ele afirma que as empresas chinesas são as únicas capazes de lançar veículos indispensáveis no mercado de forma mais rápida, acessível e com mais tecnologia do que os modelos ocidentais. Wakefield projeta que, nos próximos quatro anos, as companhias chinesas conquistarão quase 75% do mercado interno, além de expandir significativamente sua participação na Ásia-Pacífico (de 3% para 30%), nas Américas Central e do Sul (de 7% para 28%) e na África (de menos de 10% para 40%).

Andrew Bergbaum, também da AlixPartners, ressalta que a consolidação chinesa amplificaria vantagens de custo e estratégias de produção localizadas. As montadoras ocidentais, segundo ele, podem enfrentar um “choque de realidade” e caminhar para a obsolescência, incapazes de ofertar EVs que atendam às preferências dos consumidores por design e inovação como os chineses.

Vantagem estratégica e tempo para reação

A vantagem de custo atual das montadoras chinesas é estimada em 35%. Uma gigaestatal poderia controlar toda a cadeia de suprimentos de matérias-primas, garantindo insumos baratos para baterias e dominando rotas marítimas e a exploração de minerais de terras raras. Tu Le, da Sino Auto Insights, aponta que seriam necessárias décadas e centenas de bilhões de dólares para as empresas ocidentais alcançarem a escala abrangente que uma consolidação chinesa proporcionaria. Ele estima que as fabricantes ocidentais têm de cinco a sete anos para se tornarem competitivas nesse novo cenário.

A possível fusão entre FAW, Dongfeng, Changan e GAC, conforme Hamlin, criaria uma megaempresa que representaria 15% das vendas globais e um volume anual de 12 milhões de veículos. Isso a tornaria a maior montadora do mundo, superando empresas ocidentais e a japonesa Toyota, que, por outro lado, têm reduzido suas capacidades de produção. As joint ventures da Toyota com FAW e GAC na China também estão sob análise, com Pequim visando consolidar essas parcerias antes de uma união maior entre as estatais, para otimizar operações e testar integrações, como explica Claire Yuan da S&P Global.