Frei Betto, escritor e ativista brasileiro, analisou em entrevista a Rafael Hidalgo Fernández, do Blog América, a dinâmica da disputa eleitoral de 2026 no Brasil, destacando a competitividade de Flávio Bolsonaro frente ao presidente Lula. Ele ressaltou que a possibilidade de Flávio derrotar Lula é multifatorial e não reflete um retrocesso da sociedade brasileira.

Segundo Frei Betto, pesquisas recentes indicam um empate técnico ou uma leve vantagem de Flávio Bolsonaro em simulações de segundo turno. A polarização do cenário político brasileiro eliminou o espaço para candidatos de centro, concentrando a disputa entre Lula e Flávio. O crescimento de Flávio é atribuído à concentração do “voto útil” da direita, que, ao perceber que ele era a opção mais viável para derrotar Lula, uniu-se em torno de sua candidatura. Essa movimentação reflete um julgamento sobre a probabilidade de vitória, e não necessariamente uma afinidade ideológica com Flávio Bolsonaro.

Fatores que influenciam a disputa e papel da campanha

A qualidade da campanha eleitoral torna-se um elemento decisivo em um cenário de empate. A campanha de Flávio Bolsonaro demonstra disciplina e foca em temas como insegurança e custo de vida, além de construir uma imagem de 'versão mais jovem e moderna de Bolsonaro'. Esses temas ressoam com a classe média urbana e o eleitorado do Sudeste. Por outro lado, a campanha de Lula, por um período, falhou em apresentar uma narrativa clara e voltada para o futuro, limitando-se a listar realizações passadas. Essa assimetria é notável no Sudeste, onde a vantagem de Flávio cresceu consideravelmente, de acordo com pesquisa da Quaest de setembro.

Frei Betto aponta que a competitividade de Flávio não se deve a um suposto 'embrutecimento' da sociedade brasileira, mas a uma força estrutural estável: o consenso eleitoral antipetista, que atravessa vários ciclos eleitorais. Dados da AtlasIntel de meados de setembro mostram que a rejeição a Lula é alta, alcançando 52%, enquanto a de Flávio é de 50,2%. Isso indica que uma parte significativa do eleitorado não votaria em Lula em hipótese alguma, optando pelo candidato que consideram capaz de derrotar o PT.

Vulnerabilidades e influência externa

A campanha de Flávio Bolsonaro não está imune a fragilidades. A eclosão do escândalo do Banco Master em maio, relacionado a um acordo de R$ 134 milhões para financiar um filme biográfico sobre Bolsonaro, causou uma queda em suas intenções de voto. Contudo, a atenção pública se desviou para o debate em torno do Supremo Tribunal Federal, permitindo que Flávio recuperasse o terreno perdido. Essa dinâmica revela a fluidez dos temas e a limitada atenção dos eleitores, que, em um ambiente de insatisfação generalizada com a classe política, podem diluir a força de acusações de escândalo.

A competitividade de Flávio Bolsonaro é, portanto, um fenômeno de concentração do voto de direita no 'candidato de oposição mais elegível' em um cenário polarizado. Isso sugere que a busca por poder do campo antipetista se sobrepõe à análise rigorosa da conduta dos candidatos, o desempenho da campanha é decisivo em um cenário de empate, e o desejo de 'mudança' do eleitorado persiste, um desejo que Lula não conseguiu monopolizar.

Em relação à influência externa, Frei Betto discutiu a validade das teses sobre ingerência e o papel da Operação Lava Jato no contexto eleitoral. Ele afirmou que, embora a dinâmica seja diferente de 2018, a tese de Noam Chomsky sobre o interesse de potências estrangeiras em limitar o papel do Brasil como ator global continua relevante. A instrumentalização política de instituições judiciais, como exemplificado pela Lava Jato e a anulação da condenação de Lula pelo Supremo Tribunal Federal, reforça a ideia de que forças externas e internas atuam para desestabilizar projetos de poder que impulsionam o Brasil como potência emergente.