O sociólogo Floriano Pesaro, diretor da ApexBrasil, afirmou que a memória política é crucial para a preservação da democracia. Em entrevista, ele apresentou seu novo livro, 'Consequências Imprevisíveis', que compila relatórios de inteligência política feitos entre 2020 e 2022, durante o auge das investidas autoritárias do governo de Jair Bolsonaro. Pesaro alertou que subestimar a capacidade de articulação e a violência simbólica da extrema-direita é um risco para a república.

A 'cupinização' do Estado e a corrosão interna

Floriano Pesaro introduziu o conceito de 'cupinização' da democracia, explicando que a estratégia bolsonarista focou na destruição gradual e interna das estruturas públicas. Segundo ele, diferente dos golpes tradicionais, essa tática envolveu o enfraquecimento de órgãos de fiscalização, a redução de orçamentos e o aparelhamento de setores estratégicos, visando forçar uma ruptura.

O sociólogo mencionou que o negacionismo sanitário durante a pandemia e a retórica agressiva contra os poderes constituídos não eram incidentes isolados, mas testes de estresse calculados para medir a resiliência das instituições, como o Supremo Tribunal Federal e os governos estaduais.

A transição de governo e os eventos de 2022

Como secretário-executivo do gabinete de transição, Pesaro testemunhou a situação precária deixada pela gestão anterior, incluindo a falta de dados em áreas sensíveis. Ele recordou os eventos de 12 de dezembro de 2022, data da diplomação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando presenciou atos de vandalismo em Brasília, com carros e ônibus incendiados. Pesaro descreveu os incidentes como uma mobilização orquestrada, com conivência policial, e um ensaio para os ataques de 8 de janeiro.

O sociólogo enfatizou que não houve espontaneidade nos atos, mas uma ação articulada com objetivos de impedir a posse do governo eleito.

A Frente Ampla e o alerta contra a normalização

Pesaro, ex-membro do PSDB, destacou a união entre Lula e Geraldo Alckmin como uma necessidade para a sobrevivência democrática. Ele salientou a diferença entre adversários e inimigos da democracia, e defendeu que figuras de centro e partidos liberais mantenham a lucidez e não caiam no discurso de falsa equivalência. A reconstrução das pontes republicanas, promovida pelo atual governo, devolveu ao país a previsibilidade institucional, segundo ele.

Ao analisar o cenário político atual, Pesaro manifestou preocupação com a 'desmemória social', alertando que a extrema-direita tenta se reposicionar como interlocutor moderado, disfarçando a mesma matriz golpista. Ele concluiu que permitir que forças que 'vandalizaram o Estado' e flertaram com a quebra da ordem constitucional voltem a ter poder coloca o país em risco novamente. A entrevista e o livro servem como um alerta para manter a vigilância democrática.