O jornal Estadão, tradicional veículo de imprensa conservador, tem publicado uma série de editoriais que levantam preocupações sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. As publicações abordam a conduta moral do político, sua atuação nos Estados Unidos e os riscos de seus vínculos com milicianos, indicando uma crítica vinda de dentro do próprio campo conservador.

Em maio, o editorial “A direita diante de seu veneno” questionou a “estatura moral e política” de Flávio Bolsonaro para liderar a direita, após a revelação de um pedido de R$ 130 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro. O jornal cobrou da direita um distanciamento dos métodos do bolsonarismo. Em julho, “Flávio Bolsonaro desserve o Brasil” criticou o senador por transformar uma audiência técnica nos EUA em palanque político, atacando Lula e sugerindo que Washington aguardasse a eleição para negociar com um novo presidente mais alinhado a Donald Trump. O Estadão argumentou que o interesse eleitoral de Flávio se sobrepôs à defesa dos exportadores brasileiros.

Investigações e ligações com milicianos

As críticas se aprofundaram em setembro com “Flávio é um candidato sob suspeita”, que tratou da investigação da Polícia Federal sobre a associação do senador com Vorcaro no financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. As suspeitas incluem corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O jornal considerou a avaliação severa e ressaltou que o eleitor deve analisar a trajetória e a conduta dos candidatos.

O editorial de 23 de setembro, “Flávio e a sombra dos milicianos”, culminou as advertências. O texto se baseia em uma reportagem que revelou a negociação de uma assessora do senador com Robson Calixto, conhecido como Peixe, para o repasse de quase R$ 200 mil de emenda parlamentar em troca de vantagens indevidas. Peixe foi condenado por integrar organização criminosa armada, ligada aos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, envolvidos no caso Marielle Franco. O Estadão considerou a resposta do senador insuficiente, afirmando que faltavam explicações sobre a proximidade com o miliciano.

Histórico de defesa e preocupações para o futuro

O jornal também revisitou o histórico político de Flávio Bolsonaro, relembrando que, em 2007, como deputado estadual, ele descreveu as milícias como um “novo tipo de policiamento” e aceitaria pagar mensalidades a esses grupos. O editorial mencionou ainda as homenagens a milicianos e o emprego de familiares de Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime, em seu gabinete na Alerj. Para o Estadão, esses episódios, somados à relação com Peixe, formam um histórico que permanece sem explicações satisfatórias.

A gravidade do histórico de Flávio Bolsonaro é intensificada pela busca pela Presidência, cargo que concentra grande autoridade, recursos e influência. O jornal enfatiza que o eleitor tem o direito de conhecer os compromissos do candidato. O editorial conclui que a candidatura de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República, um alerta que associa episódios de sua biografia a um perigo para a nação.

O Estadão também faz um paralelo com o pleito de 2018, quando publicou “Uma escolha muito difícil” entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro. Agora, oito anos depois, o mesmo jornal alerta para riscos semelhantes. A oposição do Estadão a Lula permanece explícita, mas as críticas a Flávio Bolsonaro, segundo o próprio veículo, demonstram que o desejo de derrotar o atual presidente não justifica ignorar os riscos apontados.

A publicação ressalta que quem combate a corrupção deve exigir explicações sobre o caso Vorcaro, quem invoca a soberania deve analisar a atuação do candidato nos EUA, e quem promete enfrentar o crime organizado precisa responder sobre suas relações com milicianos. A responsabilidade do candidato é esclarecer sua história e os compromissos que assume em nome do país.