Uma agência de checagem de fatos identificou um total de 43 inconsistências nas declarações do senador Flávio Bolsonaro (PL) a respeito de sua ligação com o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O senador adotou diversas estratégias de defesa: inicialmente, desvinculou o caso de seu círculo político, depois negou conversas com Vorcaro, posteriormente confirmou os contatos e passou a argumentar que não cometeu irregularidades. As críticas também foram direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após a divulgação de encontros do magistrado com o ex-banqueiro.

A relação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro ganhou destaque nas investigações sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, uma biografia de Jair Bolsonaro. A apuração aborda desde o período anterior à segunda prisão de Vorcaro, em março, quando Flávio Bolsonaro associou as investigações ao governo atual, até a posterior confirmação de encontros e mensagens. O senador chegou a utilizar a frase “O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula” para desvincular o caso da direita. No entanto, o levantamento indicou que o próprio Flávio participou de pelo menos dois encontros presenciais com Vorcaro.

Mudança de versões e financiamento do filme

A versão do senador mudou publicamente em maio, após a divulgação de mensagens pelo Intercept Brasil que mostravam Flávio e Vorcaro negociando R$ 134 milhões para o financiamento de “Dark Horse”. Inicialmente, o senador negou as mensagens, chamando um repórter de “militante”, mas confirmou a autenticidade dos diálogos posteriormente em um vídeo. Ele defendeu que as conversas não demonstravam crime e que sua atuação era apenas a de “um filho buscando investimento privado para o filme do pai”.

A Polícia Federal investiga a origem e o destino dos recursos da produção. O ministro André Mendonça, do STF, determinou a apuração de possíveis delitos como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Há também a hipótese de que parte dos valores tenha custeado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A investigação ainda analisa a possível utilização de emendas parlamentares no financiamento, já que uma entidade presidida pela sócia da produtora recebeu R$ 2 milhões de duas emendas.

Conhecimento sobre dificuldades e ataques a Moraes

Flávio Bolsonaro alegou que Vorcaro “não tinha absolutamente nenhuma acusação contra ele” no período das conversas, que ocorreram entre setembro e novembro de 2025. Contudo, a revista Piauí já havia noticiado, em abril daquele ano, dificuldades financeiras do Banco Master. As próprias mensagens de Flávio indicam conhecimento dos problemas de Vorcaro, com o senador mencionando em áudio de setembro de 2025 que o banqueiro estava “passando por um momento dificílimo”. Dias antes, o Banco Central havia rejeitado a venda do Master ao BRB. O senador também teria tentado contatar Vorcaro nos quatro dias anteriores à sua primeira prisão, em 17 de novembro de 2025.

Outro ponto de contradição surgiu sobre a prestação de contas do filme. Após a divulgação das mensagens, Flávio prometeu pedir uma prestação de contas, mas apresentou uma perícia privada como tal. O perito, no entanto, não detalhou notas fiscais nem teve acesso a gastos nos Estados Unidos, que representavam cerca de 70% das despesas. A estratégia de Flávio também incluiu ataques a Alexandre de Moraes, associando-o ao presidente Lula após a divulgação de mensagens entre Vorcaro e o ministro. O senador criticou Moraes por viajar em um avião ligado a uma empresa de Vorcaro, mas documentos revelaram que o próprio Flávio utilizou a mesma aeronave, alegando que, na ocasião, ela pertencia a outro advogado.