A América Latina vivencia um período de crescente alinhamento de governos com os Estados Unidos e a proliferação de discursos fundamentalistas e messiânicos. Neste contexto, as eleições presidenciais brasileiras e a iminente visita do Papa Leão XIV à região, em novembro, ganham destaque. O continente, majoritariamente cristão, enfrenta profunda polarização econômica, e o debate sobre a atualidade da Teologia da Libertação, que surgiu na década de 1960 e impulsionou mudanças sociais, é retomado.

Duas visões da Igreja em conflito

Conforme Nelson Villarreal Durán, filósofo uruguaio e especialista em questões religiosas, o cristianismo latino-americano é marcado pela coexistência de duas vertentes. A Teologia da Libertação, segundo Villarreal, persiste atuante em diversas comunidades, consolidando-se como uma abordagem cultural, tanto católica quanto evangélica, que parte da realidade para a ação. Esta teologia se diferencia por seu método de ver (a realidade através das ciências sociais), julgar (com base bíblica) e agir (práxis transformadora), em contraste com concepções teológicas mais abstratas.

O Papa Francisco já endossou pilares da Teologia da Libertação em suas encíclicas, e seu sucessor, Leão XIV, cuja experiência pastoral no Peru em comunidades humildes o influenciou, mantém e defende esses princípios. Ambos os pontífices sustentam que ser cristão implica em estar ao lado dos pobres e excluídos, defender o meio ambiente e a paz, uma visão que ainda ressoa na Igreja latino-americana. As Conferências Episcopais do continente, com bispos nomeados por Francisco, seguem, em parte, essas diretrizes.

Por outro lado, existe uma corrente eclesiástica, especialmente entre padres mais jovens, que prioriza questões morais em detrimento de temas políticos, valoriza a religiosidade popular e defende valores tradicionais, opondo-se a novas realidades sociais e culturais. Esta visão conservadora se alinha com setores reacionários de igrejas evangélicas, que, segundo Villarreal, compartilham uma perspectiva de família tradicional e uma prática espiritual despolitizada. Ele sugere que essa igreja tradicional se associa aos governos conservadores, enquanto a Teologia da Libertação fomentou movimentos sociais e governos progressistas.

A voz dos sem voz e a visita papal

O Cardeal brasileiro Jaime Spengler, presidente da Conferência Episcopal do Brasil e do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM), enfatiza o papel da Igreja em ser um sinal de contradição diante do poder político, atuando como a "voz dos sem voz" frente a injustiças. Ele ressalta a tradição e religiosidade popular do catolicismo latino-americano, observando o retorno de fiéis à comunidade católica e o crescimento de jovens que se declaram sem religião. Em um recente chamado, Spengler incentivou o discernimento e a participação ativa dos cristãos nas eleições brasileiras, citando o Evangelho de João para destacar a preocupação com a vida digna. Ele também expressou, em entrevista, sua preocupação com as ações do presidente dos Estados Unidos na América do Sul, defendendo o diálogo entre o Norte e o Sul globais como resposta à injustiça.

A viagem do Papa Leão XIV, que inicia em 6 de novembro no Uruguai e prossegue para Argentina e Peru, é aguardada com grande expectativa. Para o Cardeal Spengler, a visita reafirma a urgência de proclamar o Evangelho e manter a opção preferencial pelos pobres, a justiça, a ética e o cuidado com a Casa Comum. Washington Uranga, jornalista argentino, prevê que a estadia do pontífice na Argentina provocará um embate entre a Doutrina Social da Igreja e o ajuste libertário, gerando uma disputa simbólica com o governo de Javier Milei, visto que a Conferência Episcopal Argentina tem sido crítica ao governo.

Uranga lembra que os bispos argentinos reafirmaram em documento o compromisso com a justiça social, a defesa do povo e a compreensão de que a paz é fruto da justiça. Italo Cherubini, teólogo ítalo-suíço, concorda que a viagem de Leão XIV será um teste para medir seu alinhamento com a herança de Francisco, especialmente na Argentina e no Peru, onde o atual Papa atuou pastoralmente. Cherubini acredita que, embora setores conservadores busquem sinais que os fortaleçam, não haverá grandes surpresas, pois o compromisso da Igreja com os pobres foi incorporado ao Magistério e à Constituição da Igreja por Francisco. Ele conclui que Leão XIV, apesar de algumas diferenças formais, ratificou as premissas doutrinárias renovadas.