O embaixador Rubens Ricupero, autor de “A Diplomacia na Construção do Brasil”, avalia que o ambiente internacional atravessa um período desafiador para a diplomacia e o multilateralismo, impactado por conflitos globais e pela gestão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em entrevista, Ricupero destacou que, apesar das incertezas, as principais questões da agenda global demandarão uma nova coordenação entre as nações.
Nesse contexto, o diplomata aponta o Brasil como um país com credenciais para assumir um papel de liderança, principalmente em relação às pautas ambiental e climática. Ao analisar a política externa americana para a América Latina, que ele descreve como uma “Nova Doutrina Monroe”, Ricupero sublinha o viés ideológico da administração Trump. Ele cita episódios recentes como a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, o apoio financeiro a Javier Milei na Argentina e a imposição de tarifas comerciais ao Brasil.
A personalidade de Trump e a diplomacia brasileira
Ricupero observa que a atuação de Trump, especialmente em seu segundo mandato, transforma a política externa em um embate de ideologias. Ele relembra que, ao aplicar tarifas contra o Brasil no ano passado, Trump invocou a atuação do Supremo Tribunal Federal e acusou o governo brasileiro de perseguir o ex-presidente Jair Bolsonaro. Embora o presidente tenha abrandado seu discurso posteriormente, o Departamento de Estado americano articula novas sanções direcionadas a membros do Judiciário brasileiro. Contudo, o embaixador acredita que esse tipo de interferência pode produzir o efeito oposto ao desejado, favorecendo a reeleição do presidente Lula.
Em relação à diplomacia nacional, Ricupero considera positiva a postura do governo Lula e do Ministério das Relações Exteriores frente às pressões de Washington. Ele ressalta que Lula é um líder mundial reconhecido e que a diplomacia brasileira mantém o foco na busca por entendimento regional. Entretanto, o embaixador reconhece que a articulação na América Latina enfrenta desafios devido à guinada política no continente, com poucos países alinhados à orientação do Brasil. Ele lembra que a tentativa de reativar a Unasul no início do mandato de Lula não obteve ampla adesão.
Vulnerabilidade econômica e projeções futuras
O diplomata destaca que o Brasil está menos vulnerável a barreiras comerciais impostas pelos EUA, graças à forte demanda asiática e chinesa por produtos primários como grãos e carne bovina. Ricupero compara a atual situação comercial com a do início do século XX, quando os EUA eram o principal destino das exportações brasileiras. Hoje, China e Ásia representam cerca de 50% das vendas externas do Brasil, seguidos pela Europa (16%) e pelos EUA (aproximadamente 10%). A presença chinesa também é significativa em investimentos diretos em setores como energia elétrica e petróleo.
Ricupero projeta que as eleições legislativas de meio de mandato nos EUA, com a expectativa de avanço democrata no Congresso, poderão alterar o equilíbrio de forças e expor a situação de Trump. Ele prevê que, após as eleições, os democratas podem iniciar um novo processo de impeachment, forçando Trump a se concentrar em questões domésticas. Apesar do provável fim do ciclo político de Trump, o embaixador alerta que sua saída não significará um retorno automático ao cenário geopolítico anterior, pois Trump é um sintoma de uma tendência na opinião pública americana que não desaparecerá.
O embaixador também aborda a degradação do ambiente multilateral e o aumento das tensões globais, com diversos conflitos em andamento e o enfraquecimento de organismos multilaterais como a OMC. Contudo, Ricupero manifesta confiança no papel que o Brasil pode desempenhar na reconstrução das bases diplomáticas mundiais, especialmente na transição ecológica e na agenda climática. Ele enfatiza que o Brasil possui uma matriz energética limpa e renovável, o que lhe confere um espaço único para atuar internacionalmente na questão ambiental. Para Ricupero, após o atual ciclo político nos EUA, será necessária uma grande reconstrução global.






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