Apoiadores do bolsonarismo devem somar mais de 50 milhões de votos nas eleições de 2026, um número significativo que levanta questionamentos sobre a manutenção do engajamento. A análise de tal fenômeno passa por compreender como ligações com milícias, hostilidade a minorias, descaso ambiental e defesa da violência não impactaram a atração eleitoral do movimento. Essas observações motivaram o retorno ao livro “O Espelho — A investigação das neuroses sociais do século XXI”, lançado em abril de 2025.

A obra busca entender o eleitor por meio da dificuldade em reconhecer as próprias carências e a facilidade em delegar a outros a solução dessas faltas. Mesmo condenando crimes e exigindo honestidade, o cidadão frequentemente encontra justificativas para atos questionáveis de seu candidato. Essa postura pode derivar do receio de perder a figura que representa segurança, importância e a esperança de se sentir completo.

A Incompletude Humana e o Papel do Líder

O psicanalista Jacques Lacan aponta que os seres humanos são incompletos, sempre buscando algo a mais, mesmo após conquistas. O desejo está em constante movimento, e objetos ou pessoas raramente satisfazem plenamente. Quando um líder político promete preencher essa busca, ele pode se tornar o receptáculo de grandes esperanças, prometendo ordem, respeito e proteção. Essa expectativa pode explicar a defesa de alguns eleitores, mesmo diante de fatos que deveriam abalar a confiança.

As referências sobre o que constitui uma família respeitável ou um cidadão de bem são moldadas pelas relações de poder, conforme Michel Foucault. O desejo do Outro, segundo Lacan, reside na busca por aceitação e reconhecimento. A sociedade oferece modelos e expectativas, e muitos se esforçam para corresponder, por vezes confundindo esse esforço com vontade própria. Em um contexto de hiperconectividade, a aceitação viralizada intensifica essa busca, levando o eleitor a votar para manter a imagem que seu grupo espera dele.

O Círculo Vicioso da Lealdade

A repetição de ideias no cotidiano pode transformar-se em evidência. Ao ouvir incessantemente que um adversário ameaça tudo o que valoriza, o cidadão começa a tomar decisões motivado pelo medo, vendo a lealdade ao seu campo como um dever. As teorias de Lacan e Foucault se complementam ao mostrar que o eleitor, para manter o reconhecimento de seu grupo, vigia a própria hesitação e busca preservar a imagem do candidato, mesmo diante de fatos incômodos. Romper essa lealdade significaria admitir um erro e contrariar seu grupo, o que pode ser mais difícil do que desculpar atos duvidosos ou culpar a imprensa.

Essa conexão com o líder também pode oferecer uma satisfação mais agressiva. Sigmund Freud observou que a convivência exige contenção da agressividade. Quando um líder humilha e ameaça publicamente, ele pode validar a expressão de hostilidades que antes seriam reprimidas. A raiva ganha aprovação, e o eleitor sente-se fortalecido pela agressão em seu nome. A neurose da performance, a obrigação de provar valor e lealdade, também contribui para essa dinâmica. Mesmo diante de decepções e conflitos, o eleitor persiste, temendo o fim do reconhecimento e a perda de um 'gozo' que se entrelaça com a dor.

A Promessa de Segurança e a Busca por Autonomia

A promessa de segurança e o prazer da agressão se unem, e o inimigo é culpado por todas as carências, como falta de respeito ou prosperidade. Contudo, mesmo a vitória não elimina a incompletude, e a frustração retorna, levando à busca por novos responsáveis. Assim, a luta contra o crime pode coexistir com a tolerância a milicianos, pois o aliado é visto como protetor, e questioná-lo ameaça a esperança depositada. A violência contra alvos específicos é cada vez mais justificada.

Compreender esse comportamento não isenta o eleitor de sua responsabilidade. A necessidade de aceitação não anula as consequências de conceder poder, e a busca por proteção não autoriza a intimidação de outros. A satisfação de pertencer não legitima a perseguição de minorias ou a devastação ambiental. “O Espelho” propõe que a autonomia surge ao reconhecer essas dependências, aceitando a própria incompletude e questionando o tipo de reconhecimento buscado: o que se está aceitando para ser amado pelo grupo? Quantas condutas incorretas foram desculpadas para manter a imagem de cidadão correto?

A psicanálise pode auxiliar o indivíduo a retomar o controle sobre si mesmo, questionando medos, repetições e a necessidade de aprovação. Ao fazer isso, o eleitor pode reconhecer influências que confundiu com vontade própria. Esse processo permite enfrentar a incompletude, reavaliar identificações e recuperar autonomia sobre seus desejos, impactando o voto. O cidadão ganha a capacidade de contrariar seu grupo, cobrar seu candidato e romper com lealdades que exigiam desculpar o intolerável. A contribuição da psicanálise para a democracia reside em devolver ao indivíduo a autoria de suas escolhas, permitindo-lhe quebrar o espelho das inclinações destrutivas e retomar o poder sobre sua própria vida.