Especialistas de Brasil e Rússia se reuniram em uma mesa-redonda para analisar o provável impacto das eleições presidenciais brasileiras de 2026 nas relações bilaterais com a Rússia. O encontro ocorreu na quarta-feira (30) e foi promovido pelo Conselho Russo de Assuntos Internacionais (RIAC), em parceria com o Centro de Diplomacia do Conhecimento e o jornal Diálogos do Sul Global. O debate, intitulado “A Escolha do Brasil — 2026: Cenários de Impacto nas Relações Rússia-Brasil”, contou com a participação de Ivan Kryazhev, Alexandra Terzi e Vanessa Martina-Silva na abertura.
O painel de discussão reuniu analistas, acadêmicos e jornalistas de ambos os países, incluindo nomes como Feliciano de Sá Guimarães (USP), Leonardo Attuch (Instituto Sul Global), Varvara Kuznetsova (Academia de Ciências da Rússia), Ana Lívia Araújo Esteves (Universidade HSE), Daniela Vieira Secches (PUC Minas) e Gustavo Pessoa (FGV). Os participantes abordaram a incerteza da corrida presidencial brasileira, a influência do Congresso Nacional nas políticas, a experiência de governos anteriores, a inércia da política externa, os riscos para o BRICS e os fatores que definem a relação entre Brasília e Moscou.
Cenários para as relações Brasil-Rússia
Leonardo Attuch indicou que um possível quarto mandato do presidente Lula (PT) resultaria na intensificação das relações com a Rússia, como demonstrado por visitas de alto nível e negociações em setores como defesa e fertilizantes. Ele ressaltou que as parcerias internacionais não comprometem a autonomia do Brasil, e que as relações bilaterais sob Lula deverão continuar se desenvolvendo. Attuch pontuou que o Brasil não tem motivo para deteriorar a cooperação, visto que acordos comerciais, como com a UE, não obrigam o país a alinhar-se com posições europeias sobre o conflito na Ucrânia.
Em caso de um eventual governo liderado por Flávio Bolsonaro (PL), Attuch previu um distanciamento da Rússia e dos parceiros do BRICS, mas não um rompimento. Esse afastamento seria motivado por um alinhamento diplomático com as diretrizes de Washington, embora a inviabilidade de cortar laços econômicos com China, Índia e Rússia impediria uma saída formal do agrupamento. Segundo Attuch, a política externa seria influenciada por figuras como Marco Rubio, mas as bases estruturais das relações bilaterais resistiriam à mudança de governo.
Impacto da política externa nas eleições
Feliciano de Sá Guimarães destacou que as questões internacionais se tornaram relevantes para o eleitorado brasileiro, influenciando diretamente o voto. Ele observou que mais parlamentares foram eleitos com pautas de política externa e que a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados se tornou uma das mais disputadas. Pesquisas da USP, citadas por Guimarães, mostram que a aprovação do presidente está ligada a temas como Venezuela, conflito Israel-Palestina, guerra na Ucrânia e as relações com o governo Trump. Guimarães indicou que uma reeleição de Lula manteria a linha atual com a Rússia, com possíveis ajustes no Ministério das Relações Exteriores. Já uma vitória de Flávio Bolsonaro geraria uma disputa entre alas “ideológica” e “pragmática” no movimento conservador.
A pesquisadora Varvara Kuznetsova analisou a evolução das propostas de campanha. O programa de Lula em 2026 destaca a palavra “soberania”, enquanto a proposta de Flávio Bolsonaro foca em segurança pública e no conceito de “cidadão de bem”. Ana Lívia Araújo Esteves relembrou a transição da política externa brasileira, de uma gestão ideologizada para um período pragmático que restaurou conexões estratégicas com Moscou, apontando continuidade nas diretrizes fundamentais, como a recusa a sanções e a manutenção do diálogo diplomático com a Rússia. Ela ponderou, contudo, que a cooperação tem limites impostos por pressões externas, especialmente em temas como defesa, operando dentro do que o “hegemon” permite, como na área de fertilizantes.
A professora Daniela Vieira Secches ressaltou a resiliência histórica das relações diplomáticas entre Rússia e Brasil, que completarão 200 anos em 2028. Ela enfatizou que, ao longo desse período, os laços raramente foram rompidos, mantendo-se mesmo em momentos de crise, demonstrando um pragmatismo que permitiu a continuidade da interação bilateral.






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