247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva subirá pela décima vez ao púlpito da Assembleia Geral das Nações Unidas na próxima terça-feira (22), em Nova Iorque. Segundo um interlocutor do Palácio do Planalto, a expectativa é de que o presidente Lula concentre o discurso nos principais temas da conjuntura internacional, com destaque para conflitos globais, paz e segurança, multilateralismo, mudanças climáticas e direitos humanos.

Lula também deverá abordar a preocupação do país com ingerências externas, sem fazer referências nominais a chefes de Estado. A estratégia repete a linha adotada no ano passado, quando o discurso fez uma defesa clara da soberania e da democracia brasileira sem citar nomes.

Mesmo sem mencionar diretamente o presidente norte-americano, Donald Trump, os recados diplomáticos deverão ser formulados de maneira suficientemente clara para serem compreendidos pelo público internacional, segundo a fonte palaciana.

Diante de um cenário em que o número de conflitos globais bate recordes anuais desde a Segunda Guerra Mundial — para além dos casos presentes diariamente na mídia e das crises no Irã, na Palestina e na Ucrânia —, o presidente Lula deverá concentrar sua fala nos temas considerados mais relevantes para a humanidade.

Paz e segurança serão tratadas como pautas fundamentais na Assembleia Geral. Os impactos das guerras são sentidos diretamente no Brasil por meio do aumento dos preços dos combustíveis, dos fertilizantes e dos alimentos. Essa dimensão econômica e social é considerada uma questão essencial e deverá mobilizar os países presentes no debate.

A avaliação no Planalto é de que os discursos de Lula e Trump representarão visões antagônicas e olhares completamente distintos sobre a forma como as questões globais deveriam ser encaminhadas.

Em seu pronunciamento, que deverá durar entre 15 e 20 minutos, a orientação é para que o presidente Lula aborde os grandes temas da atualidade mundial, entre eles a eleição no Brasil em outubro.

Interlocutores do Palácio do Planalto afirmam haver forte atenção de organismos internacionais e de outros países em relação ao processo político brasileiro. Segundo o relato, embaixadores acompanham as pesquisas eleitorais e também os acontecimentos relacionados à crise no Supremo Tribunal Federal.

Essa atenção externa, porém, não deverá levar Lula a fazer uma defesa nominal do STF em seu discurso. A avaliação predominante no governo é de que não existe, neste momento, motivo para levar uma referência específica ao Supremo ao púlpito da ONU.

Segundo essa avaliação, o que existe atualmente envolve questões relacionadas à concessão de vistos, e não um novo ataque direto ao Judiciário.

Essa posição poderia mudar diante de um episódio diferente. Caso haja um novo ataque externo contra o Judiciário brasileiro, vindo dos Estados Unidos ou de qualquer outro país, a avaliação é de que Lula deverá defender a instituição.

Os discursos no fórum multilateral também deverão dar atenção à avaliação das responsabilidades pelos conflitos globais e à solução de dois Estados, nos marcos de 1997, para o conflito entre palestinos e israelenses. Entre os temas essenciais previstos para mobilizar as nações está ainda o enfraquecimento de instituições internacionais.

A inteligência artificial também está entre os assuntos considerados para o discurso de Lula na Assembleia Geral, embora sua presença na versão final ainda não esteja garantida.

O problema do crime organizado também poderá aparecer no discurso do presidente na Assembleia Geral. Para interlocutores de Lula, o assunto oferece uma oportunidade de apresentar a abordagem brasileira com seriedade sobre o problema.

A eventual inclusão do tema no discurso de Trump ocorre em meio à avaliação do governo de que a segurança pública passou a ocupar espaço relevante também na disputa política.

Segundo a avaliação feita no Planalto, classificar o narcotráfico como um problema de segurança nacional americana pode abrir espaço para justificativas destinadas ao emprego da força.

A interpretação do governo é de que existem outros interesses inseridos na fórmula adotada pelos Estados Unidos para tratar do narcotráfico. Por isso, o Brasil defende que o problema do crime organizado seja enfrentado de maneira considerada séria, sem a utilização do tema para outros objetivos políticos.

O governo brasileiro também não trabalha com uma previsão sobre o que Trump dirá a respeito do Brasil em seu discurso. A avaliação é de que o presidente americano pode fazer comentários positivos, negativos ou simplesmente não mencionar o país.

Interlocutores de Lula recordaram ainda que, no ano passado, o Departamento de Estado teria sido surpreendido por elogios feitos por Trump ao presidente brasileiro durante a Assembleia Geral. Segundo o relato, Trump deixou de seguir o teleprompter naquele momento para falar sobre Lula. Posteriormente, fez críticas ao brasileiro, enquanto o último telefonema entre ambos foi descrito no Planalto como marcado por manifestações de cordialidade.

O Planalto considera natural que Lula e Trump apenas se cumprimentem caso se encontrem nos espaços da Assembleia Geral. Uma abordagem informal também não é descartada durante a passagem por Nova York. Caso haja alguma conversa, a expectativa é de um contato de cordialidade.

Apesar da proximidade entre as duas falas, não existe, até agora, movimentação para uma reunião bilateral entre Lula e Trump durante a passagem por Nova York. Também não há pedido dos Estados Unidos para um encontro reservado, embora o Planalto admita que a situação possa mudar à medida que se aproxima a terça-feira.

A expectativa, de maneira geral, é de que Lula não faça referências nominais a outros chefes de Estado. De acordo com o Planalto, o presidente costuma transmitir determinadas mensagens sem identificar diretamente seus destinatários, prática considerada adequada ao ambiente diplomático.

Isso, porém, não significará ignorar os acontecimentos internacionais. A orientação é para que Lula trate das situações consideradas mais relevantes e apresente a posição brasileira diante delas.

Antes do discurso, o presidente Lula deverá ter uma breve reunião com o secretário-geral da ONU, António Guterres. A passagem do presidente por Nova Iorque será curta, com chegada prevista para o fim da tarde de domingo (19) e retorno ao Brasil por volta do meio-dia de terça-feira (22).