A direção do Partido dos Trabalhadores (PT) considerou que a proibição repentina das apostas online contribuiu para o desempenho do presidente Lula no primeiro turno da eleição. Conforme informações veiculadas pela imprensa, líderes petistas apontam o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, como responsável por ter defendido a interrupção total das operações de apostas pela internet poucos dias antes da votação, conforme noticiado pelo Uol.

A análise surge em meio ao balanço interno da campanha e à preparação para o segundo turno. Relatos indicam que o presidente do PT e coordenador da campanha, Edinho Silva, juntamente com membros do Ministério da Fazenda, eram contra a implementação da medida da forma como foi proposta. A preocupação era com a potencial perda de arrecadação e, principalmente, com uma possível reação eleitoral que poderia favorecer Flávio Bolsonaro.

Discussão interna e o momento da proibição

Inicialmente, a discussão no governo previa uma intervenção mais específica, focada nos cassinos online, incluindo jogos como o popular Tigrinho. Contudo, Sidônio teria defendido uma abordagem mais ampla, que englobasse também as apostas esportivas. Em 25 de setembro, o presidente Lula assinou a medida provisória que determinou o encerramento das atividades das plataformas. A proibição foi anunciada a apenas nove dias do primeiro turno.

Há semanas, Lula vinha defendendo publicamente uma postura rigorosa contra o setor, argumentando que as apostas causavam endividamento, desestruturação familiar e problemas de saúde relacionados à ludopatia. Em agosto, o presidente já havia expressado sua defesa pessoal pelo fim das bets. No entanto, membros da própria campanha agora questionam se o momento escolhido para implementar a medida pode ter gerado consequências eleitorais negativas. Em uma reunião pós-primeiro turno em Brasília, membros da campanha avaliaram que a proibição pode ter sido um erro estratégico, embora não haja pesquisas que confirmem uma ligação direta entre a medida e o resultado das urnas. É importante ressaltar que pesquisas anteriores indicavam amplo apoio social à proibição, com um Datafolha realizado entre 28 de setembro e 1º de outubro mostrando que 78% dos entrevistados eram favoráveis ao fim das apostas online.

Comunicação da campanha e futuro das bets

As críticas a Sidônio se inserem em um debate mais amplo sobre as falhas na comunicação da campanha durante o primeiro turno. Dirigentes do PT defendem mudanças para a etapa decisiva da eleição. Por ora, a substituição do publicitário Raul Rabello, responsável pela propaganda eleitoral de Lula e ex-sócio de Sidônio, não está em pauta. Uma alternativa considerada é a inclusão de Otávio Antunes na equipe, um publicitário associado a uma comunicação mais assertiva. Antunes comandou a propaganda de Fernando Haddad na eleição para o governo de São Paulo, vencida por Tarcísio de Freitas, embora o resultado daquela disputa não tenha sido atribuído ao seu trabalho pelo PT. Ele também esteve à frente da campanha pela chamada “taxação BBB” — bilionários, bancos e bets —, que propunha elevar a tributação sobre setores de maior renda e, em contrapartida, reduzir impostos para os mais pobres.

O diagnóstico petista não sinaliza uma mudança na posição de Lula sobre os problemas sociais decorrentes das apostas. Ao anunciar a proibição, o presidente comparou os efeitos da ludopatia a outras formas graves de dependência e afirmou que as bets haviam transformado as casas brasileiras em cassinos. O debate interno foca principalmente na forma e no timing da decisão. Parte da direção partidária avalia que uma medida de tal impacto econômico e social, adotada nos últimos dias da campanha, criou um conflito desnecessário com apostadores, influenciadores, empresas do setor e clubes de futebol. Esta tese, contudo, é uma interpretação política da direção petista e não uma conclusão comprovada por pesquisas eleitorais. Os próprios dados do Datafolha indicam que a proibição tinha apoio majoritário, inclusive entre eleitores de Flávio Bolsonaro. A imprensa procurou Sidônio Palmeira para comentar as críticas atribuídas à cúpula do PT, mas ele não se manifestou.