O 1º turno de domingo (4) confirmou que o Brasil continua partido em dois, mas mudou o lado que está na frente. Com 99,99% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro (PL) terminou com 47,03% dos votos válidos e Lula (PT) com 45,16%. São cerca de 2,2 milhões de votos de diferença. Os dois voltam a se enfrentar no 2º turno, no dia 25 de outubro.

Em 2022 a ordem era a inversa: Lula saiu do 1º turno com 48,43% e Jair Bolsonaro com 43,20%. De lá para cá, Lula perdeu 3,3 pontos e o bolsonarismo ganhou 3,8. A soma dos dois polos ficou praticamente igual: 92,2% dos votos válidos, contra 91,6% quatro anos atrás. Sobrou pouco espaço para quem tentou correr por fora.

Um país dividido ao meio, mas com o meio mais à direita

O mapa por região repete o desenho de 2022, só que com todas as cores um pouco deslocadas para o mesmo lado:

🔴 Nordeste: Lula fez 63,8% (eram 66,8% em 2022). A vantagem dele na região caiu de 13 milhões para 11,1 milhões de votos.

🔵 Sudeste: Flávio fez 51,4% (Bolsonaro tinha 47,6%), com 5,7 milhões de votos à frente.

🔵 Sul: Flávio fez 60,1% (Bolsonaro tinha 54,6%), com 5 milhões à frente.

🔵 Centro-Oeste: 56,5% para Flávio (53,8% em 2022).

🔄 Norte: foi a região que virou. Em 2022, Lula ganhou por 47,1% a 45,4%; agora Flávio venceu por 49,2% a 44,6%.

Somados, Sul e Sudeste deram a Flávio 10,7 milhões de votos de vantagem, quase o dobro dos 5,5 milhões que deram a Bolsonaro no 1º turno de 2022. Lula venceu em 12 estados, todos do Nordeste e do Norte; no Amapá, a diferença foi de 225 votos.

O Sul, fortaleza do bolsonarismo

Nenhuma região deu tanto a Flávio quanto o Sul, e nos três estados ele foi melhor do que o pai em 2022:

📍 Santa Catarina: 66,7% para Flávio (62,2% para Bolsonaro em 2022). Lula, 25,0%.

📍 Paraná: 59,9% (55,3% em 2022). Lula, 31,2%.

📍 Rio Grande do Sul: 55,6% (48,9% em 2022). Lula, 35,7%.

O Rio Grande do Sul foi onde a mudança foi maior: Lula caiu de 42,3% para 35,7%, 6,6 pontos a menos, a maior queda dele entre os estados do Sul. O estado, que em 2022 ainda tinha uma disputa apertada, ficou com um placar parecido com o do Paraná.

No Paraná, Lula perdeu mais onde a renda é menor

Para entender onde a votação de Lula encolheu, o Você Viu Isso? comparou o resultado das 399 cidades do Paraná em 2022 e em 2026 e separou as cidades em quatro faixas de renda, cada uma com a mesma quantidade de eleitores. O resultado é claro: quanto mais pobre a cidade, maior foi o tombo.

📉 Nas cidades mais pobres (239 municípios), Lula caiu de 43,1% para 35,8%: menos 7,3 pontos. Bolsonaro tinha 50,3% nessas cidades; Flávio fez 56,9%.

📉 Na segunda faixa (99 cidades), Lula foi de 36,9% para 31,1% (−5,8).

📉 Na terceira (51 cidades), de 32,4% para 28,3% (−4,1).

➖ Nas 10 cidades mais ricas, que incluem Curitiba e Maringá, Lula quase não se mexeu: de 31,2% para 29,7% (−1,5).

A consequência aparece no mapa: Lula venceu em 140 cidades paranaenses em 2022 e em apenas 49 em 2026.

O interior virou mais do que as cidades grandes

O mesmo corte por tamanho de cidade mostra que a mudança veio do interior. Nas 314 cidades menores do estado (até cerca de 13 mil votos), Lula caiu de 43,2% para 35,7%. Nas três maiores (Curitiba, Londrina e Maringá), foi de 29,9% para 28,7%.

Entre as cidades com mais de 20 mil votos, as maiores quedas de Lula foram no Sudoeste e no Centro-Sul:

⬇️ São Mateus do Sul: de 44,8% para 33,8% (−11,1)

⬇️ Dois Vizinhos: de 48,2% para 37,6% (−10,6)

⬇️ Palmas: de 54,0% para 44,6% (−9,5)

⬇️ Francisco Beltrão: de 45,6% para 36,6% (−9,0)

⬇️ Guarapuava: de 45,5% para 36,9% (−8,6). Em 2022, Lula tinha ficado só 1,5 ponto atrás de Bolsonaro na cidade; agora Flávio fez 55,0%.

Nas cidades grandes, a votação de Lula ficou quase parada: Londrina (24,5% → 24,2%), Foz do Iguaçu (32,5% → 31,5%) e Curitiba (31,4% → 30,4%). Já em Cascavel (−4,8), Colombo (−4,9), Ponta Grossa (−4,0) e Araucária (−6,9), a queda foi parecida com a do interior.

E os bairros mais pobres?

Dentro das cidades, o Você Viu Isso? cruzou o voto de cada escola de votação de 2026 com a renda do bairro onde ela fica. No estado inteiro, Lula ainda vai melhor nas regiões mais pobres: 36,6% na faixa de menor renda, contra 27,3% na de maior renda. Mas Flávio venceu em todas as faixas, inclusive nos bairros mais pobres, onde fez 55,6%.

Nas grandes cidades, a diferença entre periferia e bairro rico quase desapareceu. Em Curitiba, Lula fez 31,1% no terço mais pobre do eleitorado e 30,7% no mais rico. Em Londrina, 25,8% e 23,4%. Em São José dos Pinhais, 29,1% e 26,1%. A exceção é Cascavel, onde a renda ainda separa bem o voto: Lula fez 34,7% nos bairros mais pobres e 20,0% nos mais ricos, onde Flávio passou de 71%.

Em outras palavras: no Paraná, a periferia já não é uma reserva de votos do PT. O bolsonarismo hoje é maioria do bairro mais pobre ao mais rico.

O centro: espremido de novo

Os candidatos que tentaram ocupar o espaço entre os dois polos somaram, juntos, 7,8% dos votos válidos no país, praticamente o mesmo tamanho de 2022, quando Simone Tebet e Ciro Gomes fizeram 7,2%:

• Augusto Cury (Avante): 2,89%

• Renan Santos (Missão): 2,24%

• Ronaldo Caiado (PSD): 2,18%. Foi forte só em casa: fez 12,3% em Goiás.

• Romeu Zema (Novo): 0,27%. Em Minas Gerais, o estado que governou, teve 0,82%.

No Paraná, os candidatos de fora da polarização foram melhor nas cidades grandes e ricas: somaram 11,6% nas três maiores cidades e só 6,4% nas menores.

Na disputa estadual, o centro teve mais força, mas também perdeu para o bolsonarismo. Sergio Moro (PL) foi eleito governador no 1º turno com 50,1%. Sandro Alex (PSD), candidato da aliança do PSD com Republicanos, MDB, PP, União e PSDB, ficou com 25,4%, e Requião Filho (PDT), apoiado pelo PT, com 23,5%. No Senado, as duas vagas ficaram com a chapa de Moro: Filipe Barros (PL) e Deltan Dallagnol (Novo). Alexandre Curi (Republicanos), do mesmo grupo de Sandro Alex, teve 16,9%.

Um detalhe chama a atenção: o centro paranaense foi melhor entre os mais pobres. Sandro Alex teve 28,6% nos bairros de menor renda e 21,8% nos de maior renda; Curi, 20,1% e 13,1%. Já Moro e Deltan cresceram conforme a renda sobe. O detalhe está na matéria Bairro rico, bairro pobre.

O que está em jogo no 2º turno

A conta de partida favorece Flávio: ele precisa de pouco menos de 3 pontos para chegar à metade dos votos válidos; Lula precisa de quase 5. E os 7,8% que foram para outros candidatos vieram, na maior parte, de nomes da direita e da centro-direita, como Caiado, Zema e Renan Santos.

Mas o 2º turno é outra eleição, e 2022 mostra por quê. Naquele ano, quem saiu atrás do 1º turno foi quem mais cresceu: Bolsonaro foi de 43,2% para 49,1%, enquanto Lula foi de 48,4% para 50,9%. A eleição foi decidida por menos de 2 pontos. Desta vez, a disputa deve se concentrar em três frentes:

1️⃣ Comparecimento no Nordeste, de onde sai a maior parte da votação de Lula. Cada ponto a mais de comparecimento na região pesa.

2️⃣ A rejeição de cada lado entre os eleitores dos candidatos de centro, que no 1º turno escolheram não votar em nenhum dos dois.

3️⃣ O eleitor de renda mais baixa do Sul e do Sudeste, que foi justamente onde, como mostram os números do Paraná, a votação de Lula mais encolheu.

Nenhum desses números é pesquisa nem previsão: são o retrato do que a urna mostrou no domingo.

Como a conta foi feita

Os resultados de 2026 são os oficiais do TSE, com 99,99% das seções totalizadas. Os de 2022 vêm da base de dados abertos do TSE, por município. A renda de cada cidade e de cada bairro é a renda média dos responsáveis pelos domicílios no Censo 2010 do IBGE, a mais detalhada por endereço que existe; cada escola de votação recebeu a renda do setor censitário onde fica. As faixas de renda foram montadas com o mesmo número de eleitores em cada uma.

⚠️ O método mostra o perfil da cidade ou da região onde se vota, não o de cada eleitor. A comparação entre bairros vale só para 2026; a de 2022 com 2026 foi feita cidade a cidade.

O resultado de cada cidade do Paraná está na página de Resultados das Eleições 2026 no Paraná, e a divisão por renda de qualquer candidato, no comparador de candidatos. Levantamento de André Guimarães, analista político e desenvolvedor de sistemas, com os dados do TSE e do IBGE.