Quem viveu aqueles anos de 2015/2016 com algum mínimo grau de empatia pela presidente Dilma deve se lembrar do completo horror misógino que ecoava pelos quatro cantos da sociedade e que foi institucionalizado.

Seja por uma fala asquerosa de um deputado ali, de uma jornalista da Globo chamando-a de cafona e chucra acolá, de ministros do STF que corriqueiramente a classificavam como nefasta, dos carros adesivados com suas pernas abertas, num dos gestos mais agressivos já presenciados contra uma mulher.

A devassa foi geral, e eu não sei como Dilma, a “Geni”, sobreviveu com saúde mental a todo esse pesadelo de um golpe de Estado. Se bem que quem sobreviveu à tortura das salas úmidas do DOI-CODI sobrevive a qualquer dor.

Anos se passaram, e muitos desses agentes do passado, que inclusive nunca se desculparam por seus ataques cruéis, aprenderam uma palavra fofa, palatável: a tal sororidade. “Nós, mulheres, temos que enfrentar o machismo estrutural como irmãs. Firmes. Independentemente de sua classe social, vamos à luta, irmãs!”

O discurso caiu nas graças da Globo, do Itaú, da Folha, de remédio para cólica, enfim, do mercado como um todo. Sororidade vende. Sororidade é Pop. E muito. De repente, trombávamos com Angélica ou a atriz da novela das 9 falando sobre luta feminista e sexismo.

Claro que, quanto mais gente falando sobre o tema, mais impulsionado ele se torna na sociedade, mas o grande problema aqui é quando a sororidade é seletiva e só protege um clã elitizado.

Como exemplo, veja o que ocorreu com a ministra Cármen Lúcia. Ela foi extremamente criticada por setores após um discurso controverso. A grande questão é que a ministra, ao criticar de forma contundente o STF, dissociou-se dele. Como se fosse um ser à parte, como se não tivesse participado de diversos momentos lamentáveis da Casa. Caiu ali de paraquedas e usou seu manto de moralidade.

Num comparativo: eu cometo um erro crasso ao apurar uma matéria e faço uma postagem dizendo o quanto o 247 é lamentável ao promover erros. Entendem? Ora bolas, eu trabalho nessa empresa!

Seu voto, a favor de que os julgamentos de Mendonça e Moraes fossem separados, também foi duramente criticado.

Apesar de tamanha contradição, o tratamento dado à ministra foi bem diferente daquele destinado a Dilma anos atrás. E que bom. Não quero que nenhuma mulher passe por tal pesadelo, mas o feminismo liberal blinda apenas uma panelinha personnalité.

Cármen não sofreu ataques, mas é tratada como uma sobrevivente de guerra, e a certeza veio com a manchete da Folha: Cármen Lúcia recebe flores de juízas após sessão no STF: “Não está sozinha”

Por quê? A ministra está doente? Apenas parem com tal vitimização barata concedida ao grupinho seleto da panelinha VIP do feminismo liberal. Daqui a pouco, já aparece Luciano Huck e afins subindo #ForçaCármenLúcia e pomba branca na Ana Maria Braga.

Repito: existe, sim, uma senhora que foi perseguida, humilhada, execrada em praça pública. Essa, sim, nunca se vitimizou e está plena, elegante e soberana coordenando o Banco dos BRICS. Todo o meu respeito e carinho pela Dilma, essa, sim, que nunca precisou beber das águas do feminismo liberal para lacrar ou lucrar e, mesmo assim, nunca ouviu uma desculpa pública desses setores da sociedade que hoje pegam na mão de Cármen e choram lágrimas de crocodilo contra a cruel sociedade machista.

O feminismo liberal segrega e não contempla a todas.