A utilização da religião em campanhas eleitorais tem sido uma constante na política brasileira, com destaque para a família Bolsonaro. A campanha de 2018 de Jair Bolsonaro foi impulsionada por orações de evangélicos, apoio de pastores e contribuições financeiras de indivíduos, que se alinhariam à Teologia do Domínio, uma corrente que busca a ocupação de cargos públicos para contrapor leis progressistas. Essa teologia, que se espalhou por diversos países, incluindo o Brasil, transformou a questão religiosa em um ponto central da polarização política.

O atual cenário político, com a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, evidencia a continuidade dessa estratégia, que posiciona a figura de Deus no centro da disputa. Tal abordagem é vista como um desafio à Constituição brasileira, que estabelece a separação entre Igreja e Estado desde a Proclamação da República. A manipulação de conceitos religiosos subjetivos facilitaria a adesão da população de baixa renda à retórica de certos líderes religiosos.

Disparidades financeiras e proselitismo

A questão social, e não apenas a política, é apontada como um fator de distinção entre evangélicos e católicos. Pessoas em situação de vulnerabilidade social em áreas dominadas por igrejas evangélicas e seus líderes, muitas vezes de grande poder aquisitivo, tendem a interpretar sua condição de vida como predestinação divina, passível de superação apenas pela intervenção de Deus. O sucesso material de pastores como Edir Macedo, Valdemiro Santiago e Silas Malafaia é apresentado como prova de bênçãos divinas. De acordo com a Forbes, Edir Macedo é o pastor evangélico mais rico do Brasil, com um patrimônio de US$ 950 milhões, seguido por Valdemiro Santiago, com cerca de R$ 700 milhões, e Silas Malafaia, com R$ 440 milhões.

Os métodos de arrecadação de fundos variam desde contribuições diretas para “estar bem com Jesus” até a venda de Bíblias a preços elevados. Para os mais pobres, são oferecidos itens como “tijolos abençoados”, pedaços de gravata ou lenços com as “lágrimas do pastor”, com a promessa de facilitar milagres, como a aquisição de moradia. Há indícios de que o dinheiro arrecadado por essas vias pode se misturar a recursos provenientes do crime organizado para financiar campanhas políticas.

Contraste entre práticas evangélicas e católicas

Entre os católicos, que formam a maioria religiosa no Brasil, também existe proselitismo político, mas de forma mais discreta e sem a exigência de contribuições financeiras diretas para candidatos. Diferentemente de alguns líderes evangélicos, não há relatos de bispos católicos discursando abertamente em comícios eleitorais. Embora a prática do dízimo exista na Igreja Católica, não há imposição de que 10% da renda seja destinada à igreja, e o dinheiro arrecadado é geralmente utilizado para financiar a estrutura organizacional e projetos sociais, sem que haja sacerdotes bilionários.

A polarização política e religiosa no Brasil gera preocupações em relação à defesa dos direitos civis, com o risco de um retrocesso a valores considerados medievais. É enfatizada a importância de os eleitores avaliarem seus próprios valores e os dos candidatos antes de votar, confiando que a liberdade humana é um valor superior que Deus respeita.