A controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida gerou mais de 2,39 milhões de menções nas redes sociais, tornando-se a quarta maior repercussão digital em eventos políticos do ano. As informações foram divulgadas pelo jornal O Globo, com base em um levantamento do Instituto Democracia em Xeque. A análise do debate digital ocorreu ao longo de quatro dias e meio e ganhou força após a discussão sobre um projeto de lei arquivado há quase duas décadas, que propunha a retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.
A proposta legislativa foi associada por apoiadores do presidente Lula (PT) à candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL). Em apenas sete dias, o engajamento do caso superou a maioria dos outros episódios políticos do ano eleitoral, ficando atrás apenas do embate entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e Alexandre de Moraes no caso Master (3,5 milhões de menções); das revelações sobre o pedido de recursos de Flávio Bolsonaro ao dono do Banco Master para a cinebiografia “Dark horse” (3,05 milhões); e do anúncio da proibição de casas de apostas virtuais pelo governo federal (2,9 milhões).
Decisões judiciais e repercussão
Pesquisadores do Instituto Democracia em Xeque destacaram a intensidade e o potencial de crescimento do debate, impulsionado por recentes decisões de ministros do STF. Na noite de segunda-feira (28), o ministro Luiz Fux suspendeu a decisão do ministro Flávio Dino, que havia cassado uma determinação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para remover conteúdos que ligavam Flávio Bolsonaro ou sua família ao caso. A liminar de Fux ainda será avaliada pelo plenário da Corte Suprema. Um dia antes, Dino havia anulado uma ordem de Mendonça que pedia a remoção de uma publicação do humorista Antônio Tabet sobre o tema.
Alexsander Chiodi, cientista político e coordenador de Relatórios do Instituto Democracia em Xeque, comentou o impacto do embate judicial nas redes. Segundo ele, a tentativa de judicialização e remoção de posts teve um efeito contrário, reacendendo a discussão em vez de contê-la. "Cada nova decisão judicial, de Mendonça a Dino e a Fux, gerou um novo pico de menções”, afirmou Chiodi.
Polarização e fé
O levantamento aponta que a esquerda concentrou esforços em acusações contra Flávio Bolsonaro e buscou o eleitorado religioso, divulgando conteúdos de devoção à santa e defesa da padroeira. A direita, por sua vez, utilizou a decisão inicial de André Mendonça para pedir a remoção de publicações e acusou os aliados do governo Lula de espalhar notícias falsas.
A análise do comportamento dos usuários demonstrou que o sentimento religioso prevaleceu sobre o conflito partidário. "No monitoramento de 2,39 milhões de menções, o que mais foi movimentado foi o debate cultural, com 29%, à frente da classificação do tema como fake news. Esse é um sinal de que o assunto é muito mais uma questão de fé e de identidade do que uma acusação eleitoral”, explicou Chiodi. A decisão de Flávio Dino gerou comemoração na esquerda, que também explorou a reação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) a declarações de Flávio Bolsonaro, argumentando que a ofensiva do candidato havia atingido a própria Igreja Católica.
Por outro lado, o grupo político bolsonarista acusou o PT de instrumentalizar a fé católica, transformando a padroeira em "isca eleitoral", e citou divergências históricas do partido com posições morais da Igreja. Esse grupo classificou a decisão de Dino como uma intervenção indevida no processo eleitoral e reforçou o histórico religioso da família, mencionando que Jair Bolsonaro (PL) é católico e lembrando atos de consagração durante sua gestão. Flávio Bolsonaro, em sua defesa, declarou que sua "briga é contra a mentira, nunca contra a Igreja".






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