Uma pesquisa Datafolha divulgada recentemente mostra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem 47% das intenções de voto entre mulheres chefes de família, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) aparece com 27%. O levantamento foi feito em âmbito nacional e traz uma margem de erro de quatro pontos percentuais para esse grupo específico, que corresponde a 30% da amostra.

No conjunto das eleitoras, a vantagem de Lula é de nove pontos percentuais. Já entre os homens, Flávio Bolsonaro aparece dois pontos à frente do petista. Esse recorte ganha relevância diante do aumento expressivo do número de mulheres que sustentam financeiramente suas casas.

Crescimento das mulheres como referência financeira

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), atualizados pela pesquisadora Janaína Feijó, da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostram que o Brasil tinha 21 milhões de mulheres nessa situação em 2012, o que representava 35% dos lares. Em 2026, esse número chegou a 42,1 milhões, fazendo com que 52,4% dos domicílios tivessem uma mulher como principal fonte de renda.

A transformação ocorreu de forma acelerada na última década, e foi a partir de 2022 que a proporção de mulheres superou a de homens nesse papel. Segundo a pesquisadora, o arranjo familiar tradicional perdeu espaço, e há uma evolução na percepção de que cada família decide o que é melhor para si. Quase um terço dos lares comandados por mulheres é formado por casadas com filhos.

Desigualdades no mercado de trabalho

Apesar do avanço, persistem diferenças relevantes. O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher de 2026 indica que a proporção de mulheres ocupadas é de 53,5%, ante 73% entre homens. No segundo trimestre de 2026, a taxa de desemprego feminina estava 1,8 ponto percentual acima da masculina, embora essa distância tenha diminuído desde 2018, quando era de 3,6 pontos, e 2022, com quatro pontos.

Os rendimentos também são desiguais: os homens ganham, em média, 25% mais que as mulheres. Em contrapartida, a escolaridade feminina é maior: 19% das eleitoras têm ensino superior, contra 14% dos eleitores. A professora Ana Fava, da Universidade Federal do ABC, atribui as diferenças a fatores como a percepção de profissões inadequadas para mulheres, dificuldades de promoção e o impacto da maternidade na carreira. Ela defende que políticas públicas são importantes para mudar essa realidade cultural.

Os números reforçam o peso eleitoral desse grupo, que mais que dobrou em 14 anos. No segmento de chefes de família, a distância entre Lula e Flávio Bolsonaro chega a 20 pontos percentuais, evidenciando um padrão de voto distinto entre homens e mulheres, com a crescente responsabilidade financeira feminina convivendo com barreiras no mercado de trabalho.