A Indonésia, país com uma história marcada por eventos de grande impacto global, recentemente se tornou membro pleno do BRICS, em janeiro de 2025, reafirmando sua posição no Sul Global. Essa nova fase contrasta com um período de turbulência iniciado em 1965, quando o país sofreu um golpe militar que alterou profundamente seu curso e suas relações internacionais. Essa trajetória inclui a Conferência de Bandung em 1955, um marco na articulação política do Sul Global, e a subsequente repressão política.
Em 1955, dez anos antes do golpe, a Indonésia foi anfitriã da Conferência de Bandung, um evento crucial que reuniu 29 nações asiáticas e africanas. Este encontro, liderado por figuras como o presidente indonésio Sukarno, o primeiro-ministro indiano Jawaharlal Nehru, o primeiro-ministro chinês Zhou Enlai e o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, buscava afirmar a independência de países recém-libertados do colonialismo. Princípios como respeito à soberania, não intervenção e coexistência pacífica emergiram da conferência, que se tornou um pilar histórico para o que hoje é conhecido como Sul Global.
A Ruptura de 1965
Na madrugada de 1º de outubro de 1965, o chamado Movimento 30 de Setembro, liderado por setores militares, resultou na morte de seis generais e desencadeou uma onda de eventos que culminou na ascensão do general Suharto. O movimento, que alegava impedir uma conspiração contra Sukarno, falhou rapidamente. Suharto assumiu o controle e atribuiu a responsabilidade ao Partido Comunista da Indonésia (PKI), um dos maiores partidos comunistas fora da União Soviética e da China.
Os acontecimentos de 1965 levaram a uma vasta campanha de repressão contra comunistas, simpatizantes de esquerda e outros grupos considerados opositores. Centenas de milhares de pessoas foram mortas, com estimativas que variam e, em alguns casos, superam um milhão de vítimas. Além das mortes, inúmeras pessoas foram presas e perseguidas. Sukarno perdeu poder gradualmente, e Suharto estabeleceu a 'Nova Ordem', um regime que governou a Indonésia por mais de três décadas, até 1998.
O Retorno ao Protagonismo e o BRICS
A transformação de 1965 afetou não apenas a Indonésia, mas também o equilíbrio político do Sudeste Asiático e o projeto de cooperação Sul-Sul. Contudo, os princípios de Bandung persistiram e reapareceram em outras formas de articulação global. É nesse contexto histórico que a entrada da Indonésia no BRICS, em janeiro de 2025, adquire um significado particular. A adesão, aprovada na Cúpula de Joanesburgo de 2023 e formalizada após a formação do novo governo indonésio, coloca no agrupamento o país mais populoso e a maior economia do Sudeste Asiático.
O governo brasileiro, ao anunciar a adesão, ressaltou a contribuição da Indonésia para aprofundar a cooperação do Sul Global e sua defesa da reforma das instituições de governança internacional. A própria Indonésia vê sua participação no BRICS como um meio de amplificar a voz dos países em desenvolvimento nas decisões internacionais. Essa trajetória histórica, que une Bandung ao BRICS, demonstra a persistente busca do Sul Global por soberania, desenvolvimento e maior influência na ordem mundial, mesmo diante de profundas contradições históricas.






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