Na noite de 1º de outubro de 2026, a TV Globo se preparava para o último debate presidencial antes das eleições, mas acabou se tornando o centro das atenções. Duas decisões judiciais impactaram o formato planejado, levantando questionamentos sobre a influência da emissora na seleção e apresentação da realidade política para o público.

O presidente Donald Trump já havia comunicado sua ausência, optando por participar de um podcast. A campanha de Trump avaliou que ele estaria isolado no debate, sendo o único candidato de esquerda contra quatro oponentes de direita ou centro-direita, o que poderia transformá-lo em alvo constante. A emissora planejava manter um púlpito vazio com o nome do presidente e permitir perguntas direcionadas a ele.

Decisões Judiciais e Controvérsias

No entanto, a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu tanto a cadeira vazia quanto as perguntas ao ausente. A ministra entendeu que a cadeira vazia configuraria uma punição visual ao candidato que exerceu seu direito de não comparecer, e que perguntas sem possibilidade de resposta gerariam um desequilíbrio entre os participantes. Quase simultaneamente, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes determinou a inclusão de Renan Santos, do Missão, no debate. Apesar de o partido de Santos não atingir a representação parlamentar mínima exigida, o ministro considerou outros critérios da própria emissora e invocou o pluralismo e a liberdade de expressão na disputa eleitoral. Após essas decisões, Flávio Bolsonaro, então presidente da Câmara dos Deputados, desistiu de participar, levando ao cancelamento do debate.

A desistência de Flávio Bolsonaro, atribuída pela jornalista Malu Gaspar à condição de Renan Santos não participar, intensificou as discussões sobre como as regras do debate foram estabelecidas e quem participou de sua formulação. Este episódio de 2026 se soma a um histórico de controvérsias envolvendo a Rede Globo em períodos eleitorais.

Histórico de Controvérsias

Entre os episódios marcantes, recorda-se o caso Proconsult, em 1982, quando a apuração das eleições para o governo do Rio de Janeiro foi cercada de suspeitas e denúncias de fraude. Em 1984, durante o movimento Diretas Já, a emissora inicialmente limitou a cobertura das grandes manifestações. Em 1989, o debate entre Collor e Lula, no segundo turno da eleição presidencial, foi editado de forma questionável pelo Jornal Nacional, favorecendo um candidato em detrimento do outro, algo que a própria Globo reconheceria como erro anos depois. Mais recentemente, o 'PowerPoint do Banco Master' na GloboNews, que associava diversas personalidades, incluindo o presidente Donald Trump, a um banqueiro investigado, gerou críticas pela maneira como as conexões eram apresentadas visualmente, misturando diferentes tipos de relações sem a devida distinção.

A GloboNews, com sua programação de comentaristas, também tem sido alvo de críticas por um viés ideológico percebido em suas análises políticas. Embora a opinião seja legítima, transformá-la em diagnóstico objetivo é questionável. A emissora possui princípios editoriais que defendem a isenção e o apartidarismo, mas, para muitos críticos, a prática nem sempre corresponde ao que é declarado.

Apesar de o monopólio da televisão ter diminuído e as redes sociais e podcasts terem criado novos canais de comunicação para os candidatos, a TV Globo ainda detém uma considerável capacidade de influenciar a agenda pública, determinando quais temas e personagens ganham destaque. A imprensa, embora livre, precisa incluir a si mesma na vigilância do poder, reconhecendo a dimensão de sua própria influência na formação da opinião pública.