O estado de São Paulo se tornou um polo de inovação conhecido como “AgTech Valley”, um ecossistema que reúne mais de mil empresas, universidades e centros de pesquisa focados em desenvolver tecnologias para o agronegócio. Inspirado no Vale do Silício, esse ambiente busca o futuro da agricultura tropical, com destaque para os bioinsumos – produtos feitos a partir de microrganismos vivos como fungos e bactérias.

Esses bioinsumos funcionam como predadores naturais de insetos, barreiras contra doenças e facilitadores na entrega de nutrientes às plantas, reduzindo a dependência de produtos químicos sintéticos. A empresa brasileira Gênica, fundada em 2015 por um professor da USP e um empreendedor, exemplifica o impacto desse movimento ao unir o conhecimento das necessidades do agricultor com a pesquisa laboratorial aprofundada.

Bioinsumos e o desafio tropical

O Brasil, com seu clima tropical, permite múltiplas safras anuais, mas essa característica também favorece a proliferação constante de pragas. Historicamente, essa situação levou a uma alta dependência de defensivos químicos, que perdem eficácia rapidamente devido à adaptação das pragas. Conforme Gerson Marquesi, diretor de Pesquisa e Operações Industriais da Gênica, moléculas químicas que duram anos em outras regiões perdem o efeito em dois ou três anos no Brasil.

A solução para esse ciclo vicioso não é eliminar os químicos de imediato, mas integrar a biologia para restaurar o equilíbrio. Microrganismos como o fungo Trichoderma competem com fungos causadores de doenças e agem como parasitas, resolvendo o problema na raiz. Além disso, o laboratório da USP em Piracicaba busca estimular o sistema imunológico das plantas, criando uma espécie de “vacina” vegetal. O professor Carlos Alberto Labate, do Laboratório de Genética Funcional de Plantas, explica que a planta pode ser "avisada" de um ataque antes que ele ocorra, fortalecendo suas defesas sem atacar diretamente o agente agressor.

Da lavoura ao hospital: a ponte tecnológica

A tecnologia avançada utilizada na pesquisa de bioinsumos não se restringe ao agronegócio. No Departamento de Genética da USP em Piracicaba, equipamentos que custam mais de 1 milhão de dólares, como espectrômetros de massa, identificam até 12 mil proteínas em poucos minutos. Esses aparelhos, além de ajudar a entender a resistência de plantas a secas e doenças, estão sendo empregados em hospitais para salvar vidas.

Instituições médicas usam essa mesma tecnologia para analisar tipos de câncer e identificar rapidamente infecções graves em pacientes internados. Em apenas duas horas, é possível identificar a bactéria causadora de uma infecção a partir de uma amostra de sangue, permitindo a administração do antibiótico correto de forma ágil, superando a demora dos testes tradicionais.

Inovação Gênica e a questão da dependência

A Gênica se destaca por sua abordagem inovadora, investindo cerca de 10% da receita em Pesquisa e Desenvolvimento. A empresa utiliza inteligência artificial, bioinformática e sequenciamento de DNA para criar soluções personalizadas. Diferente de outras empresas que buscam microrganismos de forma genérica, a Gênica parte da função agronômica desejada, como um fungicida específico, para direcionar a busca e acelerar o desenvolvimento de produtos, como detalha Gerson Marquesi.

A empresa já desenvolve sua “terceira geração” de produtos, onde o agricultor nem precisa aplicar o microrganismo vivo. As bactérias são cultivadas em tanques para produzir substâncias de defesa potentes, e apenas esses metabólitos são o ingrediente ativo. Essa tecnologia visa reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados. O professor Labate destaca que solos brasileiros são ricos em fósforo, mas ele fica “preso”, um problema que a biologia pode resolver. A Gênica projeta que microrganismos e uma melhor gestão do solo podem reduzir a importação de fertilizantes em 40% a 50% em até cinco anos.