A recente visita do presidente chinês, Xi Jinping, a Nova Délhi, durante a cúpula dos BRICS em setembro, sinaliza um novo esforço para estabilizar as relações entre China e Índia. Esta foi a primeira visita de Xi em sete anos e a primeira desde o confronto de Galwan em 2020. Segundo Rahul Pandey, pesquisador associado da Vivekananda International Foundation (VIF), o encontro não representou uma completa redefinição, mas sim uma tentativa pragmática de administrar as divergências e evitar futuras rupturas. Pandey analisou fontes em língua chinesa para compreender a percepção da comunidade estratégica de Pequim sobre a aproximação sino-indiana.
Apesar da melhora no ambiente diplomático, acadêmicos chineses mantêm uma postura cautelosa diante das profundas divergências que marcaram a relação bilateral. A posição oficial de Pequim, contudo, é mais otimista. Durante o encontro entre Xi e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, a China enfatizou que as duas nações devem se enxergar como "parceiras, e não rivais", vendo-se como oportunidades de desenvolvimento e não como ameaças. A estratégia chinesa se baseia em quatro pilares: percepção estratégica adequada, cooperação mutuamente benéfica, gestão das divergências (incluindo a questão fronteiriça) e maior coordenação em instituições multilaterais.
Confiança e economia impulsionam aproximação
Entre os especialistas chineses, a avaliação é mais comedida. Há um reconhecimento de que a fase de confronto direto pós-Galwan foi superada, mas poucos analistas veem a atual etapa como uma verdadeira redefinição dos laços. Eles descrevem a situação como uma estabilização cautelosa, uma reaproximação econômica pragmática e a continuidade da competição estratégica. Lin Minwang, vice-diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Fudan, afirmou que, embora as relações tenham melhorado, a reconstrução da confiança continua sendo um desafio significativo. Divergências históricas, disputas de fronteira e as consequências políticas de confrontos recentes enfraqueceram as bases sociais e políticas da relação, e cúpulas de alto nível, embora estabilizem, não apagam anos de desconfiança.
A economia surge como um dos principais motores dessa reaproximação. Xie Chao, pesquisador do Centro de Estudos do Sul da Ásia da Universidade Fudan, relaciona a mudança de ambiente a discussões internas na Índia sobre os custos econômicos do confronto com a China. Setores da indústria eletrônica indiana, por exemplo, manifestaram preocupação com o impacto das restrições a empresas chinesas na produção e no emprego. Nova Délhi busca desenvolver sua capacidade industrial e reduzir a dependência excessiva da China, mas enfrenta desafios, pois empresas chinesas detêm posições importantes em diversos segmentos. A retomada seletiva das relações econômicas com Pequim seria, portanto, compatível com uma estratégia indiana de diversificação.
Coexistência competitiva e autonomia indiana
Liu Zongyi, diretor do Centro de Estudos do Sul da Ásia do Instituto de Estudos Internacionais de Xangai, descreve a estratégia indiana como uma "coexistência competitiva". A Índia não pretende um desacoplamento econômico completo da China, nem deseja alinhar-se completamente a Pequim. Nova Délhi busca manter o diálogo enquanto compete nos campos econômico, político e estratégico. Nesse cenário, o BRICS se mostra um espaço relevante, permitindo a cooperação em finanças, comércio, pagamentos transfronteiriços, moedas locais e clima, mesmo com divergências persistentes em outras áreas.
A participação indiana no BRICS não significa um afastamento dos Estados Unidos. Zhu Jiejin, da Universidade Fudan, avalia que a Índia busca se posicionar como um polo autônomo no sistema internacional, preservando sua liberdade de ação entre diferentes centros de poder. Assim, a melhora nas relações com Pequim não implica necessariamente um distanciamento de Washington ou de outros parceiros. Essa autonomia permite à Índia participar de diferentes arranjos internacionais, evitando dependências excessivas e defendendo seus interesses em uma ordem global multipolar. A visita de Xi Jinping, para Pandey, não representa um retorno ao otimismo anterior, mas sim uma tentativa de estabelecer regras para gerenciar a rivalidade, permitindo que a competição continue sem gerar colapsos políticos e diplomáticos – uma fórmula de coexistência que pode ser relevante para o BRICS e o Sul Global.






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