A iminência do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, marcado para amanhã, 4 de outubro, levanta discussões sobre possíveis interferências externas e a legitimidade do processo eleitoral. O atual presidente, Lula, busca a reeleição, enquanto Flávio Bolsonaro, candidato da extrema-direita e alinhado a figuras como Donald Trump e Marco Rubio, almeja restaurar a influência política de seu pai. O pai de Flávio, Jair Bolsonaro, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão por tentar liderar um golpe contra a democracia brasileira.

Analistas apontam para uma estratégia de construção de uma narrativa que questionaria a legitimidade da eleição, caso o candidato da extrema-direita não seja vitorioso. Essa narrativa já estaria circulando em redes digitais, como evidenciado pelo perfil Commentary Trump Daily, gerido pela plataforma conservadora Red Audience. Este perfil apresenta Lula como um presidente ilegítimo e sustenta a alegação de que Jair Bolsonaro teve a eleição fraudada e foi posteriormente preso por seu adversário, além de celebrar uma possível vitória de Flávio Bolsonaro como um triunfo para os Estados Unidos.

Ações Diplomáticas e Alertar de Especialistas

A entrevista de Jamil Chade com Paulo Abrão, diretor do Washington Brazil Office e ex-secretário executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ressaltou o perigo de apresentar a derrota eleitoral como uma injustiça que poderia justificar o uso da força. Abrão descreve um cenário em que acusações de fraude no Brasil poderiam ser ecoadas por autoridades estrangeiras e, posteriormente, apresentadas como prova de dúvida internacional sobre a eleição, criando um ambiente de desconfiança.

Em resposta a essas preocupações, representantes de 15 organizações da sociedade civil brasileira viajaram a Washington para defender o respeito aos resultados eleitorais. Essa articulação resultou em uma carta enviada a Marco Rubio por 30 deputados democratas dos Estados Unidos e pelo senador Bernie Sanders, denunciando pressões econômicas, diplomáticas e políticas contra o Brasil. O prazo para Rubio responder à carta era 1º de outubro, mas a CNN Brasil informou, em 2 de outubro, que não houve resposta. A Casa Branca, por sua vez, negou as acusações de interferência.

Tensões Internacionais e o Papel dos EUA

Na sexta-feira, 2 de outubro, a situação diplomática se acirrou quando os Estados Unidos suspenderam os serviços consulares presenciais no Brasil, citando preocupações de segurança. A Austrália também fechou sua embaixada em Brasília. A Polícia Federal brasileira informou que investigava possíveis ameaças a instalações norte-americanas, mas não havia encontrado elementos que confirmassem os riscos. A campanha de Lula pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que incluísse a suspensão dos serviços consulares na apuração de uma suposta interferência externa nas eleições.

O reconhecimento da vitória de Lula por Joe Biden em 2022, logo após a divulgação dos resultados, ajudou a reduzir o espaço para tentativas de golpe. No entanto, o risco de Donald Trump, caso vença as eleições nos EUA, não reconhecer uma possível reeleição de Lula é considerado um fator de preocupação. Esse cenário poderia dar respaldo internacional a alegações de fraude, estimular a agitação de apoiadores de Bolsonaro e agravar uma crise diplomática, com potenciais consequências econômicas, incluindo sanções e tarifas. Casos como o embargo a Cuba e a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, sob a presidência de Trump, são citados como precedentes do alcance das ações de Washington. O secretário-geral da ONU, António Guterres, já havia alertado para os riscos de operações de forças da maior potência militar do mundo contra países da América Latina.