O cancelamento do debate presidencial que seria promovido pela TV Globo na reta final do primeiro turno gerou frustração nas campanhas de Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). As equipes consideravam que a exposição em rede nacional seria uma das últimas chances para que os eleitores conhecessem melhor os candidatos, numa tentativa de frear o avanço do voto útil.

Integrantes das campanhas, conforme a jornalista Isabel Mega da CNN Brasil, expressaram em caráter reservado que a decisão comprometeu uma oportunidade crucial para os candidatos que estão abaixo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas de intenção de voto. A principal preocupação é que eleitores de candidaturas menos competitivas migrem para Lula ou Flávio nos dias que antecedem a votação, já que os dois têm dominado a disputa presidencial.

Impacto para Cury, Caiado e Zema

A decepção é evidente entre os membros das campanhas da terceira via, que, sob reserva, afirmaram que suas chances foram prejudicadas, atribuindo a situação a um suposto benefício para Lula e Flávio. A avaliação é que a ausência do confronto televisivo favorece a manutenção da polarização. O debate era visto como fundamental, especialmente porque Caiado e Zema, mesmo na reta final da campanha, ainda enfrentavam dificuldades para nacionalizar seus nomes, apesar de terem sido reeleitos governadores em 2022. Ambos não conseguiram transformar a projeção regional em competitividade para a corrida presidencial.

No caso de Zema, a campanha ainda busca recuperar espaço em Minas Gerais, seu próprio estado, onde a pesquisa Genial/Quaest mais recente indicou um potencial de voto de 3%. Ele também encontra dificuldades para transferir força política na disputa pela sucessão estadual. Caiado, por sua vez, divide as atenções com a eleição em Goiás, buscando manter o controle do governo local, enquanto em nível nacional, sua campanha explorava a experiência administrativa.

Cury e a busca contra o voto útil

Augusto Cury também via no debate uma chance de abordar diretamente o movimento pelo voto útil. De acordo com interlocutores citados pela CNN, o candidato planejava questionar a estratégia de Flávio Bolsonaro de atrair eleitores de outros concorrentes, com um tom firme, mas sem agressividade. A campanha de Cury trabalhava com a perspectiva de um segundo turno, argumentando que não haveria necessidade de antecipar a escolha entre os dois candidatos líderes no primeiro turno.

A busca por conter o voto útil já era uma estratégia dessas campanhas. Um dia antes, a CNN havia noticiado que Caiado e Cury pretendiam usar o debate para responder, indiretamente, à tentativa da campanha de Flávio Bolsonaro de conquistar eleitores de candidaturas menores.

O cancelamento acontece em um período em que as candidaturas alternativas a Lula e Flávio tentam reverter a perda de espaço. Nas últimas semanas, Cury, Caiado e Zema intensificaram as críticas à polarização, defendendo que os eleitores mantenham suas escolhas no primeiro turno. A estratégia já havia sido identificada em setembro, com as campanhas buscando explorar atributos como experiência administrativa, baixa rejeição e distanciamento dos polos principais da disputa para preservar votos.

O desafio aumentou na reta final. Uma pesquisa Meio/Ideia de 30 de setembro revelou que cerca de 18% dos entrevistados ainda não apontavam espontaneamente um candidato à Presidência, uma parcela de eleitores que pode ser decisiva. Sem o confronto televisionado, Cury, Caiado e Zema perdem uma das principais plataformas para alcançar esse eleitorado, enfrentando pressão para evitar que a disputa se concentre ainda mais em Lula e Flávio Bolsonaro nos últimos dias de campanha.